RESENHA #233: REFLEXO NO ESPELHO

AUTORA: Anne Rice
SINOPSE: Um ousado e jovem repórter entrevista Louis de Pointe du Lac, nascido em 1766 e transformado em vampiro pelo próprio Lestat, figura que permeia boa parte da obra ao lado de Claudia, a filha adotiva dos dois.

Todos nós queremos ter mais tempo, seja para ler ou aproveitar melhor a vida. Alguns, ambiciosos, querem ainda mais: a imortalidade. Essa temática permeia a literatura desde muito tempo e o gótico vai questionar isso através de grandes escritores como Oscar Wilde e também, é claro, Anne Rice em Entrevista com o vampiro.

O romance de estreia de Rice conta com uma mudança de perspectiva importantíssima desde o início da tradição vampiresca: o vampiro, pela primeira vez, tem voz narrativa. Através da biografia de Louis, personagem melancólico e cheio de culpa, conheceremos quem é o vampiro e deixá-lo dizer isso com a ajuda de um interlocutor.

Essa tradição, advinda antes mesmo de Drácula, sempre coloca o vampiro como a figura escusa, estrangeira e que foge ao padrão da sociedade, tanto é que ela, como na obra de Bram Stoker, não tem reflexo, porque sua personalidade e a sua verdade não são consideradas. Aqui, ele tem.

Na década de 60, as minorias passaram a ganhar voz dentro da nossa sociedade, o que fez com que a nossa percepção a respeito dos narradores da historiografia mudasse, isso também se estendeu à literatura. Agora, um vampiro poderia falar da mesma forma que um negro, uma mulher e um homossexual. Essas vozes plurais e muitas vezes silenciadas adentram profundamente nessa narrativa.

Anne Rice nasceu em Nova Orleans e, para quem não sabe, essa foi uma das grandes bases sulistas do período escravocrata e da exploração e plantação de cana-de-açúcar e algodão. Assim, durante o período inicial da narrativa, observamos Louis, um proprietário de uma fazenda e de escravos.

Ao trazer o passado histórico dos Estados Unidos, a escritora não só retrata sua terra natal, mas o abuso contínuo que essas camadas populares e escravas viviam. As condições eram terríveis e eles eram submetidos a diversos abusos por parte dos seus patrões, tão sugadores de sua vida quanto vampiros. Inclusive, Rice retrata uma época em que o iluminismo já está em voga e faz um contraponto entre a cultura branca iluminista, com sua ciência negando o sobrenatural, e a cultura africana dos escravizados, os quais reconhecem a existência do vampiro e o temem. Dessa maneira, a escritora esboça a racionalidade e o temor, muito sensato, por parte da população negra, que era desacreditada.

Também é preciso considerar o estrangeirismo de Louis e a necessidade da figura do entrevistador, pois ambos denotam que, por mais que a voz do vampiro seja ouvida, ele ainda é estrangeiro e é necessário interlocutores para causas importantes. Assim, através desse romance histórico, repleto de elementos do gótico e do sobrenatural, há diversas discussões filosóficas.

Louis é um personagem que questiona a sua realidade e precisa constantemente de respostas. Suas perguntas, é claro, acompanham as do leitor que, junto dele, pergunta-se a diferença entre humanidade e vampirismo, racionalidade/ciência e religião/fé, a existência de Deus e do Diabo, além de trazer um existencialismo marcado e uma necessidade de desenvolver a sua própria passividade de raciocínio. Não menos importante, há também a percepção do feminino e da relação homoafetiva.

A personagem mais significativa da narrativa é Claudia, cuja existência é fadada ao sofrimento, pois seu corpo não acompanha sua mente. Através dos dramas da vampira, observamos a percepção de bem e mal, além das similitudes que carrega com Lestat (sua sede de sangue) e com Louis (seu amor pela arte). Assim, Claudia nos traz o contraponto marcado da relação parental: a violência masculina de Lestat e a feminilidade através da doçura de Louis, em que há a repulsa da presença masculina pela sua falta de utilidade. Inclusive, o mesmo ocorre com Babette, a humana que pode comandar sua própria fazenda.

Não obstante, há, dentro do texto, muitos momentos de sensualidade e erotismo, mesmo quando tratam sobre a relação de Cláudia e Louis. O vampiro é uma figura livre de amarras e a sua existência se deve, sobretudo, ao seu desejo pelo prazer. Dessa maneira, as relações hetero e homoeróticas são constantes, bem como o desejo pelo sangue e pela morte. Esse desejo pelo prazer e pela morte, inclusive, adentra a teoria freudiana a respeito de Eros e Thanatos, mostrando que o sexo não se afasta da morte, mas, como Louis pontua, a pulsão da vida não é nada perto da pulsão da morte – principalmente para ele, um personagem melancólico que carrega uma culpa constante.

Junto da culpa de Louis há também a composição sacra da narrativa, na qual o personagem vive em constante diálogo. Somado a isso, há também um questionamento quanto a moralidade e a estética e até o que é o mal, considerando o ponto de vista. Os vampiros, numa resposta iluminista, patriarcal, branca e elitista, são uma praga, uma epidemia, pois sua distinção estrangeiríssima de comportamento é uma “maldição”, tal como a imortalidade é vista pela ótica de Louis.

Há mais dois pontos que eu gostaria de ressaltar: o primeiro é o uso de Paris/Nova Orleans, colônia francesa antes de ser parte dos Estados Unidos. O francês é conhecido como a língua do amor, da mesma forma que Paris é a representação da cidade luz (pode-se pensar do conhecimento e do iluminismo) e do amor. Além disso, em maio de 68, houve, embora hoje sua importância seja desmistificada, greves gerais e estudantis. As francesas, nesse momento, protagonizaram um levante feminista muito importante e, dentre as demandas, elas resolveram levantar a bandeira da sua liberdade sexual. Esse movimento que foge ao estereótipo do conservadorismo pode ter sido uma das bases de Rice. Não menos importante, o teatro de vampiros é um dos aspectos mais interessantes da narrativa, pois levanta – junto do final – a percepção humana sobre a dor do outro e, desse modo, o questionamento de Louis não só se estende as criaturas da noite, mas as do dia também.

A edição cedida em parceria pela editora Rocco é de capa dura e conta com a tradução de Clarice Lispector que, no meu ponto de vista, precisa ser revisitada desde muito tempo. Não acho que a tradução de Clarice traga o máximo de Rice, por incrível que pareça. A diagramação é confortável e a arte da capa é sensacional.

REFERÊNCIA

RICE, Anne. Entrevista com o vampiro. Tradução de Clarice Lispector. 1ª ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2020.