RESENHA #231: HORROR! HORROR!

AUTOR: Joseph Conrad
SINOPSE: “Não quero aborrecer muito vocês com o que aconteceu comigo.”, diz o marinheiro Marlow aos colegas de navegação enquanto anoitece no Tâmisa. Ele começa então a relatar sua experiência no período em que esteve à frente de um barco a vapor em um rio na África.

A literatura nem sempre serve só para entretenimento. Ela tem essa função, porém, diversas vezes, podemos encontrar muito mais. Coração das Trevas é conhecido por uma frase espantosa: “O horror! O horror!”, bem como pelo fato de ser uma denúncia de Joseph Conrad a Leopoldo II.

Em 1823, James Monroe, o presidente dos Estados Unidos da América, deu um ultimato para os europeus, dizendo a eles que não poderiam mais explorar os países americanos. A conhecida Doutrina Monroe deu aos países da Europa muito o que se preocupar, afinal, precisavam de mercado e matérias primas. Assim, os olhos gananciosos se voltaram para o solo africano (também houve exploração dos continentes asiático e oceânico).

Anos mais tarde, disputas entre essas grandes potencias começaram a ocorrer. Assim, em 1884, houve a Conferência de Berlim. Os países europeus se reuniram para decidir quem ficava com o que da África sem se preocupar com seus costumes e tribos, nem rivalidades (o que, no período de independência, causou guerras civis). Durante esse processo, Leopoldo II convenceu as pessoas de que era um humanista, preocupava-se com os povos africanos e tinha intenções “humanitárias” e “civilizatórias”. Afinal, de acordo com o darwinismo social, a ideia de que as raças superiores tinham o “dever de ajudar e educar as inferiores”, ele deveria fazer isso.

Muitos acreditaram nele, inclusive, Joseph Conrad que, como seu protagonista Marlow, foi até o Congo e descobriu as atrocidades das terras privadas de Leopoldo II. Afinal, o Congo não pertencia a Bélgica, mas ao rei (particularmente). Dessa maneira, o rei belga tinha controle sobre uma grande produção de marfim e borracha, além de vidas humanas que passaram por terríveis atrocidades.

Muitas dessas atrocidades são narradas em Coração das Trevas, cujo nome possui diferentes possibilidades de significado. A primeira delas diz respeito ao território (análise espacial), pois era uma mata fechada que, pouco a pouco, os homens se perdiam; a segunda possibilidade diz respeito ao conhecimento (análise social), pois as pessoas não sabiam o que se passava na localidade; a terceira, minha preferida, trata sobre o próprio coração dos homens (análise psicológica), a escuridão que habita a alma daqueles que subjugam e não pensam nas atrocidades que cometem (vale destacar que essa parece ser a ideia do escritor, pois há um médico pesquisando justamente isso no início da história).

A narrativa de Coração das Trevas é interessantíssima, visto que há dois aspectos essenciais: o primeiro é que é a narração de uma narração. Alguém está contando ao narrador os acontecimentos da sua vida, assim, a inconclusão e a relação entre verdade e mentira, na história do pescador, é essencial para entender sobre os engodos feitos pelos trâmites políticos da época. A segunda delas é a relação paralela e espacial feita entre o Tâmisa (Inglaterra) e o Rio Congo (nas instalações de Leopoldo II, no período), que diz respeito sobre a construção não só do cenário, mas também sobre a ideia de civilização e selvageria.

Essa discussão, presente no darwinismo social, é muito importante para o texto, pois as pessoas acreditavam mesmo que levar sua cultura a esses lugares era o correto, porém, Conrad mostra que a intencionalidade disso é terrível. Assim, Marlow representava boa parte dos indivíduos que acreditavam no espírito imperialista da época, sobretudo, que os países e seus líderes tinham o interesse de ajudar, e não de roubar desses povos.

Coração das Trevas é um livro cru e poético que retrata a história com honestidade, mostrando o medo e o horror causado pela exploração, por mais que seja do ponto de vista de um homem branco e parte dessa “comunidade civilizatória” terrível. O que demonstra que essa exploração era tão nefasta que nem mesmo os próprios exploradores gostavam dela.

Há, dentro do teor poético e impressionista, muitos adjetivos e subjetividade de um homem que viu aquilo de perto. Também há um jogo brilhante, para combinar com o título, entre luz e sombra, em diferentes níveis de análise, principalmente, no que tange a análise espacial e psicológica, pois o narrador do narrador desce o rio cada vez mais para adentrar ao coração das trevas.

Os negros são apresentados, a priori, como comentam especialistas, como plano de fundo. No entanto, no meu ponto de vista, pouco a pouco, eles ganham algumas camadas que o tiram desse espaço. Essa representação ocorre, principalmente, em relação ao feminino, pois a única mulher que tem consciência de sua condição e o medo dos homens brancos é uma mulher tribal. As demais mulheres são subjugadas e iludidas pelos personagens masculinos. Os brancos, por sua vez, vão se tornando cada vez mais terríveis ou mais ingênuos, no ponto de vista de Marlow. Além disso, há a representação e a percepção de como a exploração e o abuso desses indivíduos nativos foram tão agressivas que eles tinham medo até de se levantar contra uns poucos brancos.

Esse é um romance de difícil leitura, mas que vale muito a pena conhecer. A edição comentada aqui foi cedida em parceria pela editora Antofágica, cuja arte e material são primorosos. No entanto, não sinto que posso dizer o mesmo da tradução de José Rubens Siqueira. Eu entendo que existe uma dificuldade imensa de traduzir Joseph Conrad, um homem polonês alfabetizado em inglês muito depois, contudo, ao conhecer o texto no original, acredito que a tradução peque em trazer todas as sensações indispensáveis ao título.

REFERÊNCIA

CONRAD, Joseph. Coração das Trevas. Tradução de José Rubens Siqueira. Ilustração de Cláudio Dantas. 1ª ed. Rio de Janeiro: Antofágica, 2019.

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