RESENHA #230: VALORES E ESCOLHAS

AUTOR: Erico Verissimo
SINOPSE: Eugênio Pontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama.

Você já quis ser rico? Pelo menos ter conforto financeiro? Provavelmente, sim. Ou conhece alguém que já disse isso em voz alta diversas vezes? Quem nunca pensou como seria legal ganhar na loteria? A maioria pensa que ter dinheiro representa felicidade. Será que isso é verdade?

Esse é o primeiro e principal tema abordado em Olhai os lírios do campo, do escritor gaúcho Erico Verissimo. Um livro que, como o escritor comenta, é uma parábola moderna, pois traz um “sabor evangélico”. Não somente isso, mas ao acompanhar a vida de Eugênio Pontes, o protagonista, também vislumbramos a história do Brasil e do mundo.

Ambientado na década de 30, Olhai os lírios do campo aborda aspectos históricos passados, como a Primeira Guerra Mundial e suas consequências, bem como de seu tempo de criação (1938) através dos movimentos ultranacionalistas e a Era Vargas. Inclusive, esse enlace entre passado e presente é importantíssimo para a formação social, psicológica, econômica e estrutural dos personagens e do cenário.

É essencial destacar que essa narrativa se assemelha muito aos romances de formação, pois retrata o início da vida até a maturidade do protagonista. Com isso, também acrescenta características históricas que fomentam nossa conexão com o período narrado. No entanto, essa é uma história que intercala tempos. O fluxo temporal não é contínuo, pois estamos acompanhando, na primeira parte, um momento de ação narrativa que ora está no passado, ora está no presente; e, na segunda, um tempo linear que trata sobre aspectos filosóficos e religiosos.

Assim, Verissimo utilizou um recurso não tão comum e que, nos dias atuais, faz muito sucesso no cinema e na literatura, instigando o leitor/telespectador a saber quem é, por que aquilo está acontecendo. Esse tipo de estrutura faz o texto se tornar dinâmico no início, embora, na segunda parte, seu aspecto filosófico-religioso faça isso ser perdido.

No entanto, a discussão filosófica e religiosa do livro é primorosa, pois esse é um período em que livros estavam sendo censurados e houve um levante absurdo do ultranacionalismo. Além de tratar sobre diferentes camadas sociais, pois Eugênio, como médico, tinha essa mobilidade dentro da hierarquia social, o livro aborda e discute a arte, a psicanálise, a desumanização da elite, os levantes dos operários, os problemas políticos gerais, sentimentos humanos, moda, literatura etc.

Há, em diferentes momentos, paralelos entre personagens. Por exemplo, o leitor é capaz de traçá-los entre Eugênio e Eunice, Eugênio e Seixas e até em Eugênio e Olívia. Também é possível travar relações como essa entre Eugênio e Felipe Lobo, em suas funções como pais. Não obstante a paternidade, encontramos uma analogia de um prédio com um indivíduo, resultando na desumanização em prol do progresso

 Olhai os lírios do campo possui um aprofundamento de personagem espetacular no que diz respeito ao protagonista e consegue fazer um excelente trabalho em alguns personagens específicos. No entanto, isso não ocorre com todos. Da mesma forma que Verissimo, considero Olívia uma personagem irreal, embora, ao meu ver, ela tenha sido construída para ser uma idealização da vida, e não a vida em si. Ela é a representação religiosa mais intensa da obra e é ela quem traz, inclusive, o título, ensinando a Eugênio o Sermão da Montanha, ensinamento de Jesus, sobre aproveitar as belezas da vida e não tentar tomar tudo, gananciosamente, para si.

Esse é um livro com muitos ensinamentos e reflexões, bem como mostra que a produção nacional é estupenda. Olhai os lírios do campo foi muito bem editado pela Companhia das Letras, tendo um prefácio excelente de Flávio Loureiro Chaves.

REFERÊNCIA

VERISSIMO, Erico. Olhai os lírios do campo. Ilustrações de Paulo von Poser. Prefácio de Flávio Loureiro Chaves. 4ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.