RESENHA #229: DROGAS OU RELIGIÃO?

AUTOR: Aldous Huxley
SINOPSE: Nesta coletânea de escritos diversos, trechos de livros, palestras e correspondência, reúne-se toda a investigação de Aldous Huxley a respeito de sua relação com aquilo que ele chamava de “experiência visionária e sua conexão com a arte e as concepções tradicionais de Outro Mundo”.

Desde que administrou uma dose de mescalina a si mesmo e registrou suas impressões nos textos de As portas da percepção e céu e inferno, Huxley atuou no debate intelectual em favor da pesquisa sobre alucinógenos e a experiência mística por meio de compostos químicos que sociedades tradicionais, como os povos das Américas, utilizavam para fins rituais sagrados e curativos. No debate acalorado de seu momento histórico, a curiosidade intelectual de Huxley está a serviço do debate público sobre drogas, um tema que permanece atual em nosso tempo.

Você já usou algum narcótico? De acordo com Huxley, como pesquisador, todos os seres humanos deveriam passar por essa experiência uma vez na vida. Em seus estudos, o autor de Admirável Mundo Novo chegou à conclusão que o uso de psicodélicos está associado, principalmente, a partes inacessíveis do cérebro.

Moksha é um termo originado da filosofia hindu, muito similar ao que entendemos como “nirvana”. Ou seja, significa a “libertação espiritual”, “transcendência”, “fim do ciclo da morte”, “renascimento” etc. Aldous Huxley utiliza esse termo como nome de uma das drogas que inventou, mais especificamente, o narcótico presente em A Ilha. Outro deles é o soma, de Admirável Mundo Novo, provindo de uma bebida ritualística hindu.

Agora, você pode estar se perguntando: por que Huxley cisma com drogas e por qual razão o nome delas geralmente está relacionado com culturas arcaicas e religião? A resposta é simples: o uso de narcóticos/psicodélicos está presente em todas as religiões antigas. Elas representavam uma forma de conexão com os deuses (psicodélicos personificados) e também com partes inacessíveis da própria mente. De acordo com Huxley, algumas das experiências, demonstraram que o mundo celta, das fadas, por exemplo, está conectado diretamente ao uso de alucinógenos.

Dessa maneira, durante boa parte de sua vida como pesquisador, Huxley deu entrevistas, palestras, escreveu a amigos e ensaios sobre o uso de psicodélicos e como eles podem afetar a vida e a experiência humana individual e coletiva. Com diferentes tipos de textos, além de amigos e até a esposa de Huxley, Moksha traz uma infinidade de informações sobre a nossa vida cotidiana, além de diferentes conhecimentos.

Huxley se preocupava com a indústria farmacêutica, com a ascensão e a intoxicação das massas por grandes ditadores, discute o clubismo acadêmico e o desenvolvimento do conhecimento, além da própria importância da religião e do poder centrado na mão de poucos.

O autor fala também sobre os efeitos da mescalina e de outras drogas, como LSD. Não obstante, procura entender a experiência e faz experimentos com outros indivíduos, além do desejo de “tirar férias” da realidade por parte de muitas pessoas. Em Moksha, é possível perceber como Huxley estudou e se preocupou com o que previu em Admirável Mundo Novo.

Esse é um livro que fala tanto sobre as ideias como sobre a trajetória, perdas e experiências do escritor. Mostra as suas preocupações e daqueles que o queriam muito bem. É um título excelente para ler junto de Admirável Mundo Novo e A Ilha.

A edição da Biblioteca Azul conta com um design coerente com a proposta da obra, além disso, tem uma ótima tradução e há uma organização impecável por parte dos idealizadores originais.

 

REFERÊNCIA

HUXLEY, Aldous. Moksha: os escritos clássicos de Aldous Huxley sobre psicodélicos e a experiência visionária. Edição original de Michael Horowitz e Cynthia Palmer. Prefácio de Albert Hofmann. Tradução de Adriano Scandolara. 22ª ed. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2022.