RESENHA #228: TODOS SOMOS (QUASE) IGUAIS

AUTOR: Aldous Huxley
SINOPSE: Em uma sociedade organizada segundo princípios estritamente científicos, Bernard Marx, um psicólogo, sente-se inadequado quando se compara aos outros seres de sua casta. Ao descobrir uma “reserva histórica” que preserva costumes de uma sociedade anterior – muito semelhante a do leitor – Bernard vai perceber as diferenças entre este mundo e o seu – e a partir de um sentimento de inconformismo, ele desafiará o mundo.

Um dos autores mais importantes da literatura inglesa foi Shakespeare. Alguns, consideram-no o mais importante, embora tenhamos outros exemplos tão conhecidos e reconhecidos quanto ele. Shakespeare e suas peças inspiraram muitas pessoas, desde artistas plásticos até escritores. Aldous Huxley foi um deles.

Admirável mundo novo é uma referência direta ao Bardo. Além das múltiplas passagens dentro do texto de diversas obras de Shakespeare, o título está conectado diretamente a um dos últimos versos da peça A Tempestade, quando Miranda, filha de Próspero, vê os homens pela primeira vez, ao passo que, durante toda a peça, vive cercada do sobrenatural.

Huxley, apropriando-se das críticas a respeito da colonização feitas por Shakespeare, vai trazer uma sociedade distópica que muito se assimila com a realidade. O escritor, é claro, como comenta em Moksha, acredita que o mundo se parece muito mais com 1984, por reconhecer que algumas de suas invenções tinham uma intencionalidade crítica em vez de uma realidade vigente.

Assim, é importante destacar que essa obra foi escrita em 1932, entre as duas grandes guerras e após o Crush de 29. Esse foi um período um tanto caótico, porque a população geral não acreditava mais no liberalismo econômico e nem no modelo democrático. Aproveitando-se das mazelas de seu tempo, das referências a Shakespeare e do seu conhecimento em relação às pessoas, Huxley criou um título que abarca uma diversidade absurda de críticas.

Desde o nome dos seus personagens, como Ford (processo fordista de criação), Lenina (Lenin, revolucionário russo comunista) ou até John (representação religiosa e nome comum dentro da sociedade), até a estratificação social, a partir das castas apresentadas na narrativa: nada é por acaso. O escritor demonstrou, de maneira brilhante, como uma sociedade livre de liberdade pode ser para pessoas que não estão acostumadas ou não foram criadas para esse processo.

De forma genial, Huxley usa a hipnopedia e explica, logo no início, o condicionamento físico e social de seus indivíduos. Essa percepção, sobretudo, adentra ao que entendemos criticamente sobre a diferença entre igualdade e equidade. Não obstante, o título fará uma associação direta entre aparência e importância social. Nossa sociedade julga, de fato, indivíduos pela aparência e o escritor consegue demonstrar como essa distinção entre pessoas funciona na prática. Ainda que tenha uma passagem racista na obra.

Outra questão importante é a família. Muitos dos problemas psicológicos gerados e vínculos sentimentais surgem a partir da percepção de laços e familiaridade. Não é à toa que o texto, por vezes, muda Ford (capitalismo) por Freud (psicanálise). Essa dispersão da família, e principalmente a pornografização do ideal materno, faz com que os indivíduos sejam incapazes de se conectar uns com os outros de forma amorosa. Dessa maneira, em busca de uma relação para preencher esse espaço, Huxley traz o sexo e a religião.

A religião, de acordo com Marx, é o “ópio do povo”. Em Moksha, Aldous repetirá essa frase diversas vezes para explicar a relação entre os humanos com a necessidade de uma deidade, de uma expressão não só religiosa, mas de felicidade pela falta de responsabilidade da vida cotidiana, como uma fuga. Então, para que sua sociedade tenha felicidade, o escritor acrescenta três ferramentas: o consumismo exacerbado, mantendo o capitalismo fordista desenfreado; soma, referência a uma bebida hindu milenar que traz apaziguamento da alma sem efeitos colaterais; e a religião de Ford, ser que substituiu Deus.

Dessa maneira, toda conexão feita entre os indivíduos é superficial, feita através de alguns desses três elementos ou o esporte (sem tempo para pensamentos profundos sobre a existência enquanto exercita o corpo).

Para além disso, o texto, como ocorre em A Tempestade fará uma dicotomia entre civilização e selvageria. A selvageria seria os modelos arcaicos que, hoje, julgamos como inferiores aos nossos, como os colonizadores fizeram aos colonizados. Em contraponto, a civilização representa a castração do pensamento, da emoção e, principalmente, da dor. John, como Huxley e Shakespeare, entende que o crescimento espiritual advém da experiência das múltiplas sensações. Assim, não é possível crescer, e dessa forma, os indivíduos se infantilizam cada vez mais dentro dessa sociedade.

Nós temos os nossos ópios, nossos vícios. Nós somos consumistas e buscamos a felicidade – desde que mundo é mundo, provavelmente –, também temos uma base religiosa intensa e temos o nosso próprio iceberg social.  Assim, pergunto a você: estamos mais perto do Admirável Mundo Novo ou do Mundo Selvagem?

Ambas as edições lidas são da Biblioteca Azul. Uma delas é brochura; outra, capa dura. São edições muito bem feitas, embora a edição comemorativa, como um plus, tenha textos extras, falando sobre o texto e sobre as antigas edições de Admirável Mundo Novo.

 

REFERÊNCIAS

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Tradução de Lino Vallandro e Vidal Serrano. 22ª ed. São Paulo: Globo, 2014.

HUXLEY, Aldous. Admirável Mundo Novo. Tradução de Fábio Fernandes. 23ª ed. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2022.