RESENHA #227: MISTERIOSO INQUILINO

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Uma nevasca prende um grupo de desconhecidos no isolado Solar Monkswell junto com um assassino psicótico; Hercule Poirot tenta desesperadamente salvar uma criança sequestrada; Miss Marple tenta proteger os herdeiros de um homem recém-falecido de um desastre iminente; e Mr. Harley Quin persegue um assassino ardiloso. Unindo um de seus contos mais famosos com mistérios dos detetives mais queridos da autora, Três ratos cegos e outros contos traz uma Agatha Christie em ápice inventivo.

O tempo todo, nós somos julgados em e pela sociedade: a forma como nos comportamos; o jeito que nos expressamos; as sensações que passamos para as outras pessoas etc. Tudo que fazemos espelha aquilo que as pessoas enxergam em quem somos, montando nossas personalidades por conta própria e nos vendo da maneira que querem. Não é diferente em A morte de Mrs. McGinty.

O primeiro e grande ponto a ser destacado é que James Bentley, para o júri, era culpado. O seu jeito de agir, a forma que falava: tudo indicava a culpabilidade, ao menos, para aqueles que não compreendem a natureza humana. Assim, a primeira crítica que Christie traz é ao júri e ao conhecimento do público a respeito do ser humano: pessoas comuns podem mesmo julgar um criminoso? Como responsáveis pelo julgamento, eles podiam decidir – por ser parte do sistema punitivo britânico – se um homem, aquele homem, deveria ou não morrer na forca por um crime que pode ou não ter cometido. Dessa maneira, a escritora não só critica o júri, mas todo o sistema penitenciário dos ingleses.

Além de utilizar uma cantiga para dar título a sua obra, Christie retoma, embora seja um romance de Hercule Poirot – e não de Mrs. Marple –, a ideia de cidade pacata/vilarejo. Essa construção muito comum nos livros em que a detetive feminina dá as caras, aparece poucas vezes quando se trata de Poirot. No entanto, aqui, esse fato ganha múltiplas camadas: a primeira é o fato de o belga ser um homem desconhecido para a população local, afetando não só o caso, mas o ego do personagem. Com isso, podemos destacar que o fato de ele não ser conhecido pelos habitantes da localidade, que amam histórias de policiais, como bem se vê através da fama de Ariadne Oliver, é uma crítica quanto ao isolamento dos lugares pequenos e a pouca transmissão de informações jornalísticas.

Não obstante, há críticas bem fortes ao jornalismo sensacionalista, em que notícia e a busca pela verdade não são os pontos mais importantes das páginas informativas, e sim fazer com que o público se comova. Christie pontua, através desse jornal, a falta de responsabilidade dos veículos de comunicação com os fatos. Essa falta de responsabilidade é estendida à ficção e às próprias obras de Christie que, brilhantemente, utiliza Ariadne Oliver para criticar a sua própria produção literária.

No decorrer das páginas desse romance, não só uma vez, a escritora desabafa suas frustrações quanto ao seu ofício, desde os erros encontrados pelos leitores até o fato de ela não gostar tanto de Hercule Poirot, cujo contato a faria, no mínimo, surtar (e eu concordo plenamente, embora adore ler as histórias que ele participa).

Assim, esse título permeia algumas críticas comuns aos romances da escritora, como a falta de informações sobre as pessoas no pós-guerra; o tratamento dado à mulher, aqui, dando espaço a comentários a respeito de violência doméstica; o machismo estrutural que diminui a capacidade feminina; as gritantes diferenças de classes sociais; além de utilizar criticamente a ficção, o texto jornalístico e até o teatro, que mostra como as pessoas podem encenar e fingir que são plenamente boas, como válvulas.

Diferente de outros romances, Hercule Poirot prefere buscar as características do culpado/criminoso em vez de procurar informações no que se sabe sobre a vítima, embora as utilize quando o convém. É um título que o mistério pode soar confuso muitas das vezes, por mais que as pistas estejam lá, e a falta de algumas informações culturais pode acabar prejudicando um pouco em descobrir a resposta previamente.

A edição da editora Harper Collins conta com a tradução de Stefano Volp, a qual não posso julgar porque já não me lembro muito bem dos detalhes do texto. E, como sempre, uma capa foi feita por Túlio Cerquize, seguindo a padronagem de arco-íris e detalhes a respeito do mistério do título (embora eu não entenda muito bem porquê uma tesoura). 

 

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. A Morte de Mrs. McGinty. Tradução de Stefano Volp. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2021.