RESENHA #224: EM BUSCA DO DESTINO

AUTOR: Sophie Anderson
SINOPSE: Há quem diga que a vida é apenas uma etapa e que, após a tão temida e misteriosa passagem, existe um mundo paralelo onde os mortos continuam a existir. Mas quem tem a missão de acolher, guiar e ajudar essas almas durante a travessia? Marinka tem 12 anos e mora com sua avó, que é uma Yaga, um Guardião cuja responsabilidade é guiar os mortos no momento da passagem, levando-os em direção às estrelas. Mas, para que essa função possa ser realizada com segurança, elas não podem viver muito tempo no mesmo lugar e, por isso, as casas Yaga possuem uma enorme peculiaridade: elas têm pernas de galinha.

Apesar da presença da avó e de seu amigo Jack ― uma gralha atrapalhada e faminta ―, o que ela mais deseja é ter uma vida normal: fazer amizades duradouras com os vivos, ir à escola e ter uma casa que não saia correndo no meio da noite. Tudo muda quando Baba Yaga desaparece misteriosamente… e cabe a Marinka encontrá-la.

Todas as culturas possuem seus mitos e lendas, algumas delas ficam mais famosas do que outras; algumas possuem conexões mais claras. Um dos personagens mais interessantes e conflitantes da mitologia russa é a Baba Yaga, como comenta um dos grandes historiadores literários Vladimir Propp.

Dentro de sua construção de contos de fadas, já que Propp era um estruturalista, ele define Baba Yaga como uma personagem ambígua, porque ela pode ser tanto vilã quanto alguém que auxilia na jornada do herói. Essa percepção, é claro, não surge com Propp, mas com os próprios contos russos.

Em textos escritos, Yaga aparece pela primeira vez em 1755, mas é muito anterior a isso. Às vezes, é uma; às vezes, é três. Assim, ganha similitude com alguns personagens míticos gregos e romanos, porque ela pode transitar entre o mundo dos vivos e dos mortos, além de sua casa ser mágica, pois anda de um lado para o outro com pernas de galinha. Também lembra a Bruxa de João e Maria, conto de fadas europeu, porque pode ser canibal e atrapalhar a jornada dos heróis em vez de ajudar. Essa ambiguidade, muito provavelmente, deve ter surgido após a cristianização, que transformou as histórias pagãs em narrativas de demônios/criaturas malignas.

E é com essa personagem que Anderson resolve trabalhar sua história infantil. Então, antes de tudo, quero deixar destacado que A fabulosa casa com pernas é um título infanto-juvenil muito delicado e cheio de lições. Essas lições são muito propícias a esse público e são recheadas de perspectiva.

Nós, quando encaramos os contos de fadas, sempre observamos uma noção maniqueísta entre o herói e o vilão. Anderson corta laços com essa tradição e desenvolve a Yaga a partir da perspectiva dela e de seus familiares, o que torna o título muito interessante.

Não obstante, o romance está recheado de ideias sobre vida e morte, além de trazer simbolismos interessantes, como a gralha e a Casa. A Casa é personificada, sendo assim, transita entre o fato de ser uma casa e seu lado repleto de emoções, não necessariamente humanas. A Casa é um lar e isso significa ser uma mãe também. Assim, nessa representação entre lar e mãe, a Casa traz elementos como pés de galinhas, as quais chocam os ovos e os protegem para que os pintinhos sejam capazes de nascer.

Com esse simbolismo, Marinka, a protagonista, tem de decidir quem ela é e o que ela quer ser. Somado a isso, o romance busca trazer a noção de destino e a liberdade de fazer escolhas.

Doce e delicado, com alguns momentos amargos, a história de Anderson é recheada de tudo aquilo que faz um conto de fadas ser bom e, ao mesmo tempo, é uma narrativa simples e sem muitos altos e baixos.

A edição da editora Darkside está belíssima. As ilustrações combinam com o romance, a tradução e a revisão estão boas, sobretudo, a capa, que mistura os detalhes macabros com os infantis.

     

REFERÊNCIA

ANDERSON, Sophie. A fabulosa casa com pernas. Tradução de Fernanda Lizardo. Ilustrações de Elisa Paganelli. 1ª ed. Rio de Janeiro: Darkside Books, 2022.

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