RESENHA #223: PALAVRAS EM MOVIMENTO

AUTORA: Pip Williams
SINOPSE: Em 1901, uma palavra sumiu do Dicionário Oxford da língua inglesa. Esta é a história da garota que a roubou.  Esme cresceu em um mundo de palavras. Criada apenas pelo pai, um lexicógrafo a serviço do Dicionário Oxford da língua inglesa, passa seus dias no Scriptorium, um galpão de jardim adaptado para servir de sala aos homens do Dicionário.  Certo dia, uma ficha contendo a definição de um verbete a encontra por acaso, e a pequena Esme passa a colecionar outras palavras como aquela – perdidas, descartadas ou negligenciadas pelos funcionários do Scriptorium. Com o tempo, ela percebe que muitas dessas palavras relacionam-se às experiências das mulheres, e que raramente são registradas. Esme decide, então, coletar palavras para seu próprio dicionário: o “Dicionário das palavras perdidas”.  Ambientado no auge do movimento sufragista, na iminência da Primeira Guerra Mundial, além de ser inspirado na real história da elaboração do Dicionário Oxford da língua inglesa, este livro revela uma narrativa perdida, singular, escondida nas entrelinhas de uma história escrita por homens.

Quantas vezes você já pensou na construção da nossa língua? As palavras que usamos: por que as usamos? Os sons que produzimos: por que esses e não aqueles outros? Toda essa linha de raciocínio é comum para estudantes de língua, os quais se especializam nas suas formas (morfologia), nos seus significados (semântica) ou até em como são postos no texto (sintaxe).

Para além disso, um estudante de Letras, enfatizando sua área de atuação em Linguística, também pode pensar em outras coisas: por que as palavras são de origem latina se estamos no Brasil? Ou por qual razão o sentido de vagabundo e vagabunda são tão diferentes entre si? Por que uma criança, quando chamada de moleque, pode significar Diabo?

Ao dizer tudo isso, quero destacar que Dicionário das palavras perdidas me contempla. As perguntas que a obra suscinta não são nenhuma novidade para estudantes da área, mas vê-las transcritas numa história tão bem feita são uma dádiva. Por que os palavrões são mal vistos, sendo que temos sinônimos que são usados tão tranquilamente? Por que todo xingamento relacionado à mulher está ligado à sua sexualidade? Por que alguns contextos exigem palavras de certo tipo e outros não?

E, por incrível que pareça, muitas delas são respondidas através dos estudos historiográficos e antropológicos. Por conta disso, Pip Williams acertou em cheio ao trazer essas perguntas para dentro de um romance histórico, pautado na própria realidade. Ao se questionar sobre as palavras, a escritora optou por utilizar a criação do Dicionário de Oxford de Língua Inglesa como base, pois ele, de fato, é a base para argumentos, estudos e sentidos das palavras e como as vemos hoje, inclusive, em buscas etimológicas.

No entanto, precisamos destacar que não havia internet. Pode parecer uma bobagem dizer isso sobre um romance que começa em 1886, mas a seleção de palavras se dava, sobretudo, porque era impossível colocar todas as palavras no papel. Não obstante a isso, havia o preconceito social e o fato de a língua ser viva. Registramos os passos da língua, mas nunca vamos conseguir contemplá-la por inteiro, já que neologismos se estabilizam e novas formas vão sendo criadas todos os dias.

Assim, Esme, a protagonista do romance, traz dois pontos muito interessantes à sua busca das palavras: algumas são rechaçadas por seu nível social; outras porque não fazem parte do espectro de prestígio. Com esse gancho, Williams consegue introduzir não só a criação do Dicionário, mas também do movimento sufragista, especialmente da primeira onda.

Contemplando essa diversidade social, também alude ao momento da Primeira Guerra Mundial, fazendo com que as pessoas compreendam que palavras nem sempre são o suficiente para expressar tudo. Elas nos dão imortalidade, através de textos que perduram, mas muitas das vezes não são o suficiente para descrever o que é essencial nesse livro: a perda e a importância, ou mais especificamente, dar importância.

Palavras e pessoas se assimilam e se afastam, porque são as palavras que nos dão a oportunidade de conhecer pessoas; ao mesmo tempo, há quem tenha muito prestígio e quem não tem nenhum; há quem esteja num nível social melhor ou seja mais requisitado; há palavras que ficam no meio do povo, no meio das mulheres etc. As palavras se mobilizam como pessoas, transparecem percepções como pessoas, e não são completas sem frases, como pessoas não são completas sem aqueles que as fizeram chegar lá. Palavras possuem dependência como bebês; mas podem traduzir sentidos em uma tira de papel e solitárias. Mas, ainda assim, só transmitem poucos sentidos, enquanto pessoas podem transmitir um mundo deles.

Assim, as palavras têm poder, porque são as pessoas que dão isso a elas, depositando a si mesmas, pouco a pouco. Seja no movimento feminista, tão bem descrito quanto a criação do Dicionário; seja no mercado com pessoas de pouca escolaridade; seja no meio da guerra quando muitos morrem. Esse é um livro que contempla todo sentido que vi nas palavras desde muito tempo e, por isso, me apaixonei por ele.

É uma história com uma trama lenta, porque é um título que fala muito sobre construção, como se faz numa dissertação ou numa tese. É sobre a construção do Dicionário, a construção da personalidade da Esme, a construção do questionamento. Williams poderia ter escrito uma tese, mas ela mastigou tudo e nos trouxe um romance formidável.

No entanto, devo destacar que, por vezes, a lentidão da narrativa pode ser incômoda e há situações que considero desnecessárias para o enredo, porém, nada disso tirou o brilhantismo da obra.

E nem da tradução. Fávero fez um trabalho sensacional na busca de palavras e trouxe sentidos muito coerentes. Não consigo imaginar o quão gratificante e trabalhoso tenha sido traduzir esse título que conta com uma capa sensacional e que transcreve muito bem o ritmo do romance.

 

REFERÊNCIA

WILLIAMS, Pip. Dicionário das palavras perdidas. Tradução de Lavínia Fávero. 1ª ed. Rio de Janeiro: Gutenberg, 2022.