RESENHA #222: SEMIAUTOBIOGRAFIA

AUTORA: Louisa May Alcott
SINOPSE: Dezembro de 1861, Massachusetts. Meg, Jo, Beth e Amy March enfrentam seu primeiro Natal sem o pai, que serve na Guerra Civil. É o marco inicial da jornada de formação das quatro irmãs, e Mulherzinhas as acompanha nesse processo até a vida adulta. Entre alegrias e aflições, desafios e conquistas, perdas e aprendizados, crescemos com elas…

Há livros que envelhecem bem, há livros que envelhecem mal. E, no meu ponto de vista, Mulherzinhas, de Louisa May Alcott, envelheceu terrivelmente mal, no entanto, há preciosidades nele que não podemos deixar de comentar.

Já deixei destacado que não gostei do título, porque entendo que essa crítica vai traçar fortemente os problemas da estrutura do romance. Contudo, isso não impede ninguém de gostar e nem de ver aspectos positivos na narrativa, até porque eles existem, ainda que de forma contraditória e quebrada.

Como uma semiautobiografia, acompanhamos Jo, o alter ego da própria escritora, porém, há diversas passagens que fogem da vida real, enquanto outras se aproximam bastante da história das irmãs Alcott. Justamente por isso, o título pode ser encarado como um romance de formação, pois a história atravessa a infância das meninas até a sua fase adulta. Não obstante, o título traçará diferentes estereótipos de meninas da época, desde as boas moças padrão, como Meg, até as mais rebeldes, como a protagonista. E, nesse contínuo, teremos a beatificação de uma das irmãs e a mudança estrondosa de outra (que conta com a melhor construção de personagem).

Como construção de personagem, justamente por ser baseado em fatos reais, Alcott faz um excelente trabalho, cada uma das irmãs tem uma voz própria na narrativa muito bem marcada. Entretanto, por ser polida por editores e se preocupar em desagradar as fãs (afinal, a vida não é um conto de fadas), Alcott, pouco a pouco, vai destituindo os personagens de características próprias deles. O que leva algumas de suas críticas sufragistas ladeira abaixo.

Outro ponto em destaque é o plano de fundo que, como romance de formação, fica bem no plano de fundo quando se trata sobre a Guerra Civil, contudo, como maior ponto positivo do título, conhecemos bem os hábitos domésticos da vida da classe alta, média e baixa dos Estados Unidos naquele período. Assim, a maleabilidade narrativa atravessa as riquezas e viagens da tia e da família de Larry, a classe média representada pela família March, bem como a pobre através das pessoas que as meninas ajudam.

Ao mesmo tempo, também conhecemos os hábitos religiosos marcados da época. Por ser um aspecto do período, é interessante saber como se dava, mas sua execução é terrível. Diferente de Anne de Green Gables, também com tom religioso, o romance de Alcott é praticamente uma catequização da juventude. Assim, ao comparar os dois títulos, de uma mulher religiosa (Montgomery) e uma sufragista (Alcott) parece que os romances foram trocados. Então, a impressão que eu tenho, particularmente, é que Alcott exagerou e muito ao transmitir os seus conhecimentos de mundo e religiosos, inclusive, vale destacar as contínuas referências bíblicas que permeiam todo o romance, bem como de O peregrino.

Contudo, como contraponto, também há muito de Charles Dickens, um escritor que, também com obras semiautobiográficas, se torna um marco literário e influencia bastante a escritora norte-americana. Por isso, vale destacar o meu maior incômodo. Jo, como Alcott, produzia literatura best-seller, ou seja, uma literatura “não-séria”, algo que Dickens também faz, e ganhava dinheiro com isso, mas ela é julgada na narrativa e, no final do título, isso parece ter se canonizado como correto. Escrever por entretenimento também é escrever e ninguém deveria julgar ninguém em relação a isso. Então, ao criticar os editores e o mercado editorial, principalmente no que tange à mulher, não impede que a escritora dê algumas lições bem incômodas. De novo, uma catequização desnecessária.

Contudo, também destaco, como positivo, algumas falas e ações de personagens bem modernas para o período histórico, principalmente da tia March, ainda que seja vista de forma negativa, em boa parte do romance. Há, claro, pontos a respeito das relações matrimoniais muito contundentes, já que, de fato, são acordos comerciais. E, em uma família com uma situação financeira complicada, pelas ações benéficas ao próximo pelo patriarca, tudo que é mais incômodo na narrativa, pode vir a ser uma crítica de Alcott. Afinal, o final é péssimo, a religiosidade é exagerada e os “castelos” despencaram.

Por conta disso, eu entendo que as ideias e as propostas da escritora – principalmente no que ela queria fazer – seriam fenomenais se não fossem os editores, assim, ela subverteu o título e o transformou em um exagero. E esse exagero é intragável.

A edição da editora Zahar é belíssima, a capa segue o padrão da linha de clássicos e os tons, principalmente o amarelado, combinam com o ar do romance. As notas e a apresentação de Gambarotto são ótimas, bem como sua tradução. 

REFERÊNCIA

ALCOTT, Louisa May. Mulherzinhas. Apresentação, notas e tradução de Bruno Gambarotto. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.