RESENHA #220: FAMILIAR HIPOCRISIA

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Quando o abastado Simeon Lee convidou seus quatro filhos e respectivas esposas para o Natal, não tinha em mente um reencontro caloroso. A ocasião era apenas um pretexto para anunciar, em meio a vociferações e insultos, que seu testamento seria alterado após as celebrações. Mas as queixas não se mantêm por muito tempo. Depois do jantar, os convidados escutam um estrondo e um grito ensurdecedor. Ao chegarem no quarto de Simeon, encontram seu corpo coberto de sangue e a mobília do quarto revirada. Mas como descobrir o assassino de um homem que cultivou inimigos a vida inteira? Somente Hercule Poirot poderá responder a esta pergunta.

Quem nunca ouviu o discurso “já está trabalhando?”, “e as namoradinhas?” ou “quando sai o casório?”, talvez o “por que você fica no computador o dia inteiro?” ou “já casou, mas e os filhos?”, e quaisquer outras perguntas de jantar de família. Ninguém gosta delas, mas, mesmo assim, elas são feitas.

Essa é uma das muitas hipocrisias das datas comemorativas que, por vezes, não acaba sendo uma pergunta genuína, mas sim para afirmar algo positivo sobre outro parente da família. Para além delas, no Brasil de hoje, a hipocrisia está até nas questões políticas, visto que as pessoas – durante as eleições presidenciais passadas em 2018, principalmente – brigaram o tempo todo para, enfim, se juntarem no Natal como se nada tivesse acontecido (ou quase).

Esse cenário é muito similar ao apresentado em O Natal de Hercule Poirot. Embora (espero, claro), as pessoas não matem ninguém no processo, diferente do romance de Christie. Assim, o primeiro ponto que quero destacar e, no meu ponto de vista, central do romance é a hipocrisia familiar.

Essa hipocrisia permeia todos os seios familiares, em maior ou menor grau. No entanto, o complicado dela é que as pessoas se forçam a fazer coisas e se submetem a perguntas que não deveriam, o que mostra certa toxidade em datas do gênero, o Natal, por ser de cunho religioso, acaba sendo ainda pior no Ocidente.

Com isso, Agatha Christie – que dedica a obra ao seu cunhado – acaba fazendo uma piada muito interessante. Criticada por não ter sangue suficiente em suas narrativas, ela banha seu romance com uma peculiar frase de Shakespeare, bem como outras referências bíblicas e literárias. Da mesma forma que ninguém aguenta mais “e as namoradinhas?”, provavelmente, ela não aguentava mais o cunhado.

E, para deixar seu romance ainda mais violento, a escritora também faz uma referência histórica bem marcante, que é a Guerra Civil Espanhola. Um dos momentos mais intensos da Europa, inspirou Picasso a criar Guernica; Orwell como o escritor, pois esse conflito armado o torna o homem que escreve 1984; e a própria Agatha, ao tratar de violência intensa.

Além do preconceito ao estrangeiro que perpassa suas obras, que também aparece nesse título, ela estende seu romance a uma crítica a respeito do que aconteceu no período de Franco, na Espanha; e a própria exploração feita pelos ingleses na África. Não obstante, faz críticas relacionadas ao patriarcado e o machismo estrutural, pois as mulheres são tratadas como objetos por Simeon, mesmo a própria esposa, e isso também acaba sendo um ponto chave na trama.

Considerando, dessa maneira, a violência da narrativa, a sanguinolência do crime e a presença do poder estatal – através da Guerra Civil Espanhola e da exploração de pedras preciosas na África –, Christie intensifica duas percepções: o problema do patriarcado e da intensa busca de poder, e o quanto isso afetou populações inteiras ou até mesmo os filhos desses exploradores terríveis.

Assim, o romance, para além de um mistério interessante, traz críticas contundentes sobre a sociedade, bem como sobre o seio familiar, mostrando que Agatha Christie, como Machado de Assis, é capaz de falar do macroespaço através do microespaço. São esses patriarcas que mitigam as próprias famílias; como esses homens poderosos no poder acabam com a população de seu próprio país.

A edição de capa dura da Harper Collins tem um tom vermelho vivo, que rememora bem o espírito natalino. A tradução é de Érico Assis e há poucos erros na edição (até onde me lembro).

 

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. O natal de Hercule Poirot. Tradução de Érico Assis. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2021.