RESENHA #219: FANTASMA DA COLONIZAÇÃO

AUTORA: Fernanda Castro
SINOPSE: Em Portomar, tudo que uma moça bem-educada e de saúde frágil pode querer é um casamento adequado. Esse é o sonho de Coralina: romântica, Mister Ícaro é a síntese das suas jovens ambições. Quando a garota morre, logo após a noite de núpcias, sua prima Francine – recém-chegada à capital, e ainda não totalmente aclimatada às regras daquela sociedade – decide descobrir os motivos por trás da morte de Cora, não importam as consequências.

Sempre escutei de amigas minhas que queriam viver nos tempos de Lizzy, protagonista de Orgulho e Preconceito, para poder frequentar os salões de baile e participar de danças coletivas. E, ao ouvir isso, eu sempre – sempre mesmo – me perguntava o porquê.

O saneamento básico não existia (quem dirá papel higiênico), os direitos das mulheres eram super questionáveis e o pensamento patriarcal, colonizador e eurocêntrico era o privilegiado (não que ainda não seja). No entanto, graças à Jane Austen e outras escritoras do período vitoriano, as histórias são divertidas e contagiantes. De fato, há um apelo em um romance glamuroso.

Mas, convenhamos, não ia funcionar na vida real, certo? Porque a vida não é assim. E, aqui, Fernanda Castro, em O fantasma de Cora, acerta em cheio. Com personagens interessantes e falhos (os masculinos mais do que os femininos), a escritora traz uma trama leve e divertida, sem isentar os problemas do “período histórico”, como questões de cunho social e racial. Também, aliado a essa construção de romance de época – sem responsabilidade histórica, porque é uma fantasia – está uma mescla de romance policial.

O título é embebido de críticas pertinentes aos romances históricos, contando desde o princípio a própria noção de colonizadores. Ao trazer essa ideia para seu universo fantástico, Castro pontua alguns problemas sociais acerca disso, como, por exemplo, o culto local ser desprezado e existir um estereótipo racial marcado. Não obstante, a escritora também comenta sobre a nobreza e uma elite capitalista, surgida no mundo real a partir do século XV.

Destaca também a posição da mulher, desde os aspectos em relação à aparência até o seu papel submisso como esposa. Embora, no romance, a escritora faça algo interessante, como expandir para o homem a submissão matrimonial. E traga um final interessantíssimo quanto a isso.

Outro ponto é o capitalismo desenfreado, cujo conta com algumas noções interessantes, como a democratização do consumo através da perspectiva da moda. Assim, é interessante destacar que essa democratização da moda só surgiu, no nosso mundo, em meados de 1959, graças ao estilista Pierre Cardin, que trouxe a ideia revolucionária prêt-à-porter (cujo significado é pronto para vestir), porque a Europa estava quebrada após a Segunda Guerra Mundial.

No entanto, embora aborde questões interessantes do mundo têxtil e elitista, o título traz um mistério bastante óbvio. E, para além dessa obviedade – que eu estava quase literalmente rezando para errar –, impacta nas críticas do romance, ao meu ver, negativamente. A resolução do mistério, em si e por si, até traz críticas instigantes, como a nobreza, para se manter no poder, não se importar como fará isso, nem o quanto irá sacrificar para chegar aos seus objetivos. Ainda mais àqueles que agarram as poucas oportunidades que têm. E isso, por mais plausível que seja, me incomodou um tanto. Dizer mais que isso seria spoiler.

O romance tem uma capa agradabilíssima e, por dentro, algumas artes bem bonitas. A diagramação é confortável e segue o padrão das obras lançadas pela editora.  

 

REFERÊNCIA

FERNANDA, Castro. O Fantasma de Cora. Ilustrações de Maria Carvalho. 1ª ed. São Paulo: Gutenberg, 2022.