RESENHA #218: DE VOLTA PARA CASA

AUTORA: Fannie Flagg
SINOPSE: Bud Threadgoode cresceu na fervilhante Parada do Apito, uma cidadezinha às margens de uma ferrovia. Ele foi criado por sua mãe, a séria e carola Ruth, e Idgie, a quem chamava de tia, uma mulher à frente de seu tempo, que adorava se divertir e quebrar as convenções. Juntas, elas criaram uma cafeteria que se tornou uma das maiores atrações das redondezas, conhecida pelo ambiente descontraído e seus famosos tomates verdes fritos, a especialidade da casa.

Porém, para a total tristeza de Bud, a estrada de ferro que sustentava a cidade foi desativada e a Parada do Apito se tornou uma cidade-fantasma. Tomado pela saudade de sua infância, Bud decide fazer uma última viagem ao lugar onde nasceu, cresceu e aprendeu as lições mais valiosas da sua vida. Seu desejo é simplesmente ver o que sobrou de sua tão amada Parada do Apito. Nessa jornada, Bud vai fazer novos amigos, rever velhos conhecidos e desvendar segredos sobre quem ele é e as mulheres que o criaram, heroínas que romperam todas as barreiras em nome da felicidade.

Algumas continuações são desnecessárias; outras são uma ode aos personagens e ao passado. Sendo assim, são importantes porque aquecem nosso coração com nostalgia e, ao mesmo tempo, desanuviam as dores que sobrecarregam nosso peito. É esse o sentimento que O incrível garoto da Parada do Apito passa ao leitor.

A continuação de Tomates verdes fritos é a dose perfeita entre alegria, memória e consolo destinada àqueles que terminaram de ler o romance anterior. Através dessas páginas, é possível reencontrar boa parte dos personagens e seus descendentes, bem como saber o que aconteceu com esse lugar tão querido e que permeia a memória de todos os seus moradores positivamente. E, claro, a do leitor também.

Da mesma forma que seu anterior, Flagg não deixa de trazer momentos históricos, como a crise financeira de 2008, cuja existência é muito importante para a trama. Também trabalhará algumas doenças, como Alzheimer, e continuará focando na diversidade, reforçando laços existentes anteriormente, pontuando preconceitos e, principalmente, falando sobre problemas mentais, como a depressão.

Nenhum dos personagens são jovens, nem mesmo os descendentes. Dessa forma, Flagg vai trazer mulheres de meia idade se redescobrindo, uma proposta cíclica da própria construção do tempo e da narrativa. Passado e presente se mesclam de formas muito interessantes.

A narrativa irá acompanhar, principalmente, Bud Threadgoode, um personagem que perdeu o braço na infância, sendo assim, vamos observar – no decorrer das páginas – toda a construção de sua psiquê e a sua relação com a falta de seu braço. Algumas passagens rememoram com maestria o título anterior.

Inclusive, um dos pontos chaves do texto é a passagem do tempo. Do passado ao presente, houve todo tipo de mudança, desde tecnológica até espacial. O espaço da Parada do Apito muda; as pessoas que lá viviam já não são as mesmas – até Dot deixa de escrever cartas e passa a digitar e-mails.

Os tempos mudaram, mas os sentimentos das pessoas não. Suas angústias, suas alegrias, a forma como se relacionam – e é muito bonito de ver como tudo isso vai se dando no decorrer da trama.

Diferente do título anterior que dá mais ênfase as múltiplas diversidades, a continuação foca a questão geracional, a idade dos personagens e como lidam com sua velhice, bem como com a mulher: desde a sua entrada massiva no mercado de trabalho até o seu lado maternal e matrimonial.

A escritora também destaca como voltar ao passado se tornou moda, trazendo a ideia do estilo gourmet satirizado. Assim, com sátiras, momentos de alegria e tristeza, Flagg mostra a importância que o Café, a Parada do Apito e os seus habitantes tiveram no passado de Bud e como são capazes de mudar, pouco a pouco, o leitor.

Não é um romance tão complexo e completo quanto o anterior, mas é um título que faz muita diferença, principalmente, pela sensação de falta e vazio que Tomates verdes fritos causa. Ele serve, através de seus capítulos curtos, para deixar seu coração mais leve, matar a saudade dos personagens, sorrir com a mudança dos tempos e perceber que você sempre pode voltar para casa.

E você pode voltar de diferentes maneiras e todas elas são essenciais.

A edição da Globo segue o padrão da capa da primeira edição, no entanto, na cor vermelha. A ótima tradução pertence a Ana Guadalupe, com poucos erros. O único parêntese é que, infelizmente, não há receitas no final.

 

REFERÊNCIA

FLAGG, Fannie. O incrível garoto da Parada do Apito. Tradução de Ana Guadalupe. 1ª ed. Rio de Janeiro: Globo, 2022.