RESENHA #217: RECEITA DA VIDA

AUTORA: Fannie Flagg
SINOPSE: Em um vilarejo isolado do Alabama – um dos estados mais pobres e repressivos dos Estados Unidos, marcado por sua rígida observação dos papéis sociais e sexuais e por uma inexorável hierarquia racial, é inaugurado, pelo singular casal formado por Ruth — doce e reservada — e Idgie — ousada e libertária –, o Café. Ele se torna ponto de encontro para os tipos humanos mais diversos e improváveis: sonhadores extravagantes, bandidos insólitos, sem-tetos vítimas da Depressão.

Os capítulos curtos alternam épocas — a década de 1980, as primeiras décadas do século XX, os anos 1930 —e histórias superpostas para criar um rico painel humano e social. O livro mistura as histórias do Café com os encontros casuais entre a dona de casa infeliz Evelyn Couch e a octogenária sra. Threadgoode numa casa de repouso. As protagonistas das memórias da sra. Threadgoode são Idge e Ruth, que quebram convenções e enfrentam todo tipo de ameaças e preconceitos. Ao longo de suas conversas, Evelyn acaba recuperando sua identidade e a sra. Threadgoode retoma seu próprio passado.

Em 28 de junho de 1969, houve um pequeno levante num bar em Nova York, o nome do bar é homônimo ao do movimento histórico: a Revolta de Stonewall. Durante esse dia, frequentadores desse bar resolveram se rebelar contra a polícia que fazia uma batida no local. Eram pessoas que sofriam constante violência, sem nunca poder se expressar e muito dificilmente frequentar alguma outra localidade, embora a homossexualidade tenha deixado de ser crime em 1962. Na época, Stonewall In era o único bar que aceitava a diversidade sexual.

Essa é a explicação do porquê junho é o pride month (mês do orgulho LGBTQIA+), bem como – para mim – soou como inspiração para um dos títulos com maior diversidade e sutileza que eu já li: Tomates verdes fritos, de Fannie Flagg. Inclusive, vale destacar que o bar de Idgie e Ruth foi inaugurado nesse mesmo mês, quarenta anos antes da Revolta.

Dessa maneira, o primeiro comentário que eu quero fazer a respeito desse livro é a relação entre História e Ficção. Flagg se apoia, com muita segurança, em alguns momentos históricos: a narrativa se passa no Alabama, ou seja, no Sul dos Estados Unidos, e como ocorre com O Sol é para todos, durante a Grande Depressão (1929). No entanto, não para nesse momento, pois atravessa a Primeira Guerra Mundial e outros acontecimentos históricos, intercalando a narrativa entre esse passado e a década de 80, período em que o título foi escrito.

Não obstante, o romance vai trabalhar fortemente a temática racial, apresentando temas de preconceito variados: a presença da Ku Klux Klan; a segregação racial; colorismo; abuso e estupro da mulher negra; a divisão de jornada de trabalho, em que negros faziam serviços muito mais difíceis e demorados etc.

Flagg também abordará a questão do feminino, apresentando dentro da história uma personagem gorda – que sofre com o padrão estético social e depressão – e uma senhora de idade, cujo mundo desvaloriza porque o tempo dela já passou. Assim, trabalhando a velhice, a aparência, bem como o abuso sexual, a violência doméstica e a posição da liberdade sexual da mulher, a escritora acaba apontando temas centrais do feminismo, destacando, principalmente, as mulheres que não se beneficiaram do movimento.

Há também, como outro ponto importante da narrativa, a recepção do casal homoafetivo, Idgie e Ruth, que, por mais bem aceita que seja pela família Threadgoode, acaba se tornando implícito na narrativa e para alguns personagens. Essa proposta, ao meu ver, é uma crítica quanto a aceitação da sexualidade das personagens naquele tempo e até mesmo na década de 80, quando Flagg escreve seu livro. Assim, contemporâneo a seu período histórico, a escritora mostra que houve mudanças, mas longe de serem ideais.

Como se passa no Alabama, Fannie não vai deixar de demonstrar a importância da religião, da estrutura patriarcal e da mudança de gerações, da mesma forma que fará referências culturais e históricas. Também vai abarcar outros tipos de diversidade, como personagens com deficiência cognitiva e física.

Esse romance vai abordar de tudo um pouco, justamente porque se passa em um Café. Com isso, a escritora conseguiu mobilidade suficiente para falar dos desabrigados, dos que sofreram com a guerra, dos que vivem atormentados, das crianças, dos negros, das mulheres e dos homossexuais. A estrutura do romance e os gêneros que o permeiam são mesclados, fazendo com que encontremos boas doses de risadas e de lágrimas. Essa, aliás, é a receita da vida – e a mais acertada de todas!

A edição apresentada pela Globo conta com a tradução de Vera Caputo, fluida e com poucos erros. A capa também é muito coerente com o título e, não menos importante, para os entusiastas da cozinha, há todas as receitas comentadas no decorrer da história. Basta fazer, aproveitar e se deliciar com as iguarias do Alabama.

 

REFERÊNCIA

FLAGG, Fannie. Tomates verdes fritos no café da Parada do Apito. Tradução de Vera Caputo. 2ª ed. Rio de Janeiro: Globo, 2018.