RESENHA #216: FUNERAL EM VIDA

AUTORA: Han Kang
SINOPSE: Em maio de 1980, na cidade sul-coreana Gwangju, o exército reprimiu um levante estudantil, causando milhares de mortes. O evento de trágicas consequências foi transfigurado nesta ficção extraordinária, poética, violenta e repleta de humanidade. Construindo um mosaico de vozes e pontos de vista daqueles que foram afetados, Atos humanos é a demonstração dos poderosos recursos literários de Han Kang, uma das autoras mais importantes da cena contemporânea.

Doloroso. Impactante. Terrível. E humano, demasiadamente humano.

Embora o título original signifique “lá vem o menino”, Atos humanos é um romance que trará a natureza humana em uma intensidade tão incrível que, durante a leitura, não há o que dizer. Agora mesmo, enquanto digito esse texto, tenho dificuldade de expressar para vocês todas as emoções e sensações que obtive ao ler a obra de Han Kang.

Assim, talvez seja mais fácil me atentar aos fatos. Em maio de 1980, na Coreia do Sul, antes de ser instalado um processo democrático (o fim da ditadura só acontece em 1998), o país passou por um período ditatorial terrível. Como na América Latina, a Coreia do Sul sofreu com um golpe militar orquestrado por Chun Doo Hwan, após a morte inexplicável de Park Chung Hee, o antigo presidente que governou durante dezoito anos o país (cuja posse presencial também se deu através de um golpe). Durante a tomada do poder, houve um levante estudantil e sindicalista contra o golpe militar, reivindicando direitos básicos como salário mínimo e liberdade de imprensa.

Aos olhos do governo, isso era inaceitável. E, assim, uma reivindicação por mudanças se tornou um massacre, nomeado atualmente como Massacre de Gwangju. É sobre esse momento histórico que Atos humanos se debruça, fazendo-nos conhecer histórias que, por mais ficcionais que sejam, são tão palpáveis que poderiam ter ocorrido com quaisquer pessoas que viveram um período ditatorial como esse, mesmo aqui na América Latina.

Tal movimento, inicialmente pacífico, foi fortemente contido pelos militares da época. De acordo com a imprensa internacional, a quantidade de mortos ultrapassa mais de mil pessoas, beirando as duas mil. Pessoas que tinham histórias, famílias, amigos e uma vida toda pela frente. O que começou em Gwanju acabou se tornando algo cada vez maior, até que o presidente não tivesse mais nenhuma legitimidade para governar e fosse condenado por seus atos em 1996.

E, ainda que eu narre todos os detalhes dessa parte da história, não sou capaz de expressar a violência e a crueldade desse período. No entanto, Han Kang, através de uma escrita visceral, sensorial, poética e crua, sim. O texto é tão esterilizado e, ao mesmo tempo, tão sanguinolento que continuo sem palavras para expressar a genialidade da artista sul-coreana.

No decorrer da leitura, ela faz com que você tenha sensações únicas. Mesmo que você chore e se passem dias após a leitura, o título continua a martelar na sua cabeça, porque é sobre a natureza humana, é sobre a falta de limites dos atos dos homens. É sobre o desespero de não acreditar nas autoridades que deveriam te proteger. É sobre se sentir culpado por estar vivo. É sobre buscar sobreviver num mar de desesperanças.

Atos humanos é um título que me faz ter lágrimas nos olhos, mesmo enquanto escrevo esse texto. É um romance sobre a humanidade e suas diferentes testemunhas: o estudante em busca do amigo; o morto desejando vingança; o operário levado à tortura; a editora em busca de liberdade crítica; a sobrevivente querendo fugir das terríveis atrocidades feitas com ela; a mãe sem um filho. Além deles, a própria Han Kang, uma menina impactada com a história de um menino, de um estudante.

Esse impacto fez com que Han Kang trouxesse a realidade de sua cidade natal; brincasse com os conceitos de vida e morte; se debruçasse sobre a dor e a sacralidade; embarcasse nas memórias e nas atrocidades.   

 Atos humanos, para além de um romance sobre o Massacre de Gwangju, é um título que nos brinda com o passado e mostra a importância da história no nosso presente. É um título recheado de testemunhas e vítimas, implorando para não serem esquecidos. É uma obra-prima que mostra o quão mortos as pessoas podem estar em vida, só lhes faltam um funeral.

Que não lhes permitiram ter.

 

REFERÊNCIA

KANG, Han. Atos humanos. Tradução de Ji Yun Kim. 1ª ed. São Paulo: Todavia, 2021.