RESENHA #215: MÃE-MULHER OU MULHER-MÃE

AUTORA: Virginie Grimaldi
SINOPSE: Como nasce uma mãe? E o que sobra para ela depois que os filhos saem de casa? A maternidade tem muitas facetas a serem exploradas, aspectos que afloram nossas melhores (e piores) emoções.

Com a proximidade do seu aniversário de 50 anos, Élise precisa aprender a lidar com a solidão. Sua filha mais velha vive em Londres, e o caçula acaba de se mudar para Paris. Como se não bastasse, sua única companhia para enfrentar o ninho vazio é um cachorro desajeitado e um tanto depressivo. Agora, ela deverá encontrar um novo sentido para sua vida e reaprender a não viver em função dos filhos.

Em situação oposta está Lili, que ainda não estava pronta para dar à luz uma menininha. Sua filha chegou antes da hora, trazendo consigo todas as angústias e temores que só uma mãe é capaz de sentir: Ela vai resistir? Como existirei sem minha filha? Ela viverá bem? Algum dia nossas vidas voltarão ao normal? Lili ainda busca entender como um ser tão minúsculo pode ocupar tamanho espaço na vida de alguém.

Duas histórias, duas versões diferentes da maternidade: a mulher que precisa aprender a ser mãe e a mãe que precisa reaprender a ser mulher.

De acordo com Simone de Beauvoir, a mulher não nasce mulher; ela se torna. No entanto, nós, socialmente falando, temos um mito muito similar no que diz respeito à maternidade: a mulher nasceu para ser mãe, enquanto, na verdade, a mulher se torna mãe. E, ao virá-la, parece que fica muito difícil ser mulher diante dos demais. Por quê?

Grimaldi, é claro, ao tocar na maternidade em As pequenas alegrias, não vai desprezar todo apelo dessa função. Pelo contrário, Élise, nossa protagonista, entende a força e o quanto fez bem para ela ser mãe. Até, é claro, sofrer do que compreendemos na psicanálise como síndrome do ninho vazio. Não é via de regra que essa síndrome afete somente a mãe, mas comumente sim, pois é a vida e os desejos dela que são os mais afetados quando uma criança se instala no seio doméstico.

Isso se deve, sobretudo, a demanda da mãe em relação aos filhos. No decorrer das páginas do título, podemos ver que Élise viveu para e pelos filhos, ao ponto de não saber mais seus próprios gostos. Ela não sabe mais qual é seu gênero filme favorito ou o que gosta de comer, assim, observamos, passo a passo, o apagamento da mulher que habita em Élise, dando espaço só para a mãe, mãe e mãe. Élise, como narradora, não julga esse aspecto como negativo (da forma que deveria), porém o leitor pode e, acredito, deva fazer isso em certa medida.

Grimaldi intercala dois tempos narrativos e duas vozes que, em comum, se distanciam. Primeiro, internaliza o presente de Élise; depois, o passado de Lili. Com isso, compreendemos a profundidade dos medos e receios da mulher de cinquenta anos e fragilidade da situação da mulher de trinta. Para além da dualidade narrativa, o texto perpassa a mais importante duplicidade da vida feminina: o que é ser mulher; o que é ser mãe; e como, magicamente, não existe um equilíbrio saudável entre essas duas funções sociais.

Até que se dê um basta nisso, é claro. Assim, acompanhamos, através das páginas de As pequenas alegrias, duas mães que enfrentam percalços e desafios para equilibrar seus dois lados que, pouco a pouco, se anulam: como mãe e como mulher. E, para além disso, considerando ainda essa função social, a culpabilização.

A mãe é culpada por tudo que o filho faz ou que lhe acontece. Se ele nasce doente, se ele acorda doente; se ele não quer fazer o trabalho, se ele tirou nota baixa. Como, então, não perceber que a sociedade, aliado ao pai e à família, faz com que relações abusivas e tóxicas permeiem as relações entre marido e mulher? Grimaldi destaca, de uma forma muito delicada, como a mulher sempre é a responsável pelos problemas. Sempre.

Com isso, destacamos a personagem de Lily e seus amigos: mulheres que, graças a um parto prematuro, não sabem se seus filhos vão durar. E, já não basta toda a situação, ainda são vistas como responsáveis pelos acontecimentos; culpadas, mesmo que não o sejam de fato. Através desse sentimento, Grimaldi traz um apelo psicológico na narrativa, trazendo informações e falas incríveis, principalmente por parte da psicóloga.

Não menos importante, para além da parte psicológica, brinda-nos com a valorização da aparência, do desejo de se sentir bem com seu próprio corpo. A vida é muito curta para se importar com estereótipos, mas é importante que cada indivíduo se importe consigo mesmo. Essa, inclusive, é uma das lições da narrativa: o tempo é curto demais para você deixar você mesmo de lado.

Ainda há, dentro do texto, projetos sociais, como os acariciadores; personagens muito distintos entre si, como mulheres que não querem ser mãe e meninas começando sua experiência materna; abuso de poder no trabalho, bem como relações tóxicas; redescobrimento do eu; e, claro, relações afetivas com cães e, mostrando, que nem só seres humanos sofrem com o ninho vazio.

A tradução de Julia da Rosa está incrível e a leitura dessa obra é bem emocionante, transportando-nos para diferentes lugares da Europa, como Tempo de reacender estrelas também faz. A autora é muito delicada e a sua escrita transparece poesia e sutileza no decorrer das páginas. São os pequenos pedaços e as pequenas conquistas dessas duas mulheres-mães e mães-mulheres que nos fazem sorrir.

 

REFERÊNCIA

GRIMALDI, Virginie. As pequenas alegrias. Tradução de Julia da Rosa Simões. 1ª ed. São Paulo: Gutenberg, 2022.