RESENHA #214: A MORTE IMPOSSÍVEL

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Quando a enfermeira Amy Leatheran aceita a oferta de cuidar de Louise, esposa do arqueólogo Dr. Leidner, em uma escavação perto de Hassanieh, no Irã, ela não esperava se ver envolvida em uma trama de paranoia, ciúmes e traições.Louise, sua paciente, é ex-esposa de um agente secreto alemão, e vinha recebendo cartas ameaçadoras desde a morte do ex-marido. Os envios pararam após seu casamento com o Dr. Leidner, mas ela volta a recebê-las durante a expedição e começa a ter visões aterrorizantes, indicando que o perigo pode estar mais perto do que ela imagina.

Para quem não sabe, Christie foi casada duas vezes. No seu segundo matrimônio, depois das polêmicas referentes ao primeiro, a escritora se casou com o arqueólogo Max Mallowan, um exímio pesquisador e especialista na história do antigo Oriente Médio. Dessa maneira, não é à toa que temos histórias como Morte no Nilo, O Assassino no Expresso do Oriente e, claro, Morte na Mesopotâmia.

Baseada em conhecimentos adquiridos com o marido, a Rainha do Crime nos permite vislumbrar um sítio arqueológico com alguns detalhes, como um mapa e até mesmo passagens de personagens explicando as suas funções e descobertas. Infelizmente, não faz mais nada além disso – e não é algo incoerente, afinal, esse não era o seu intuito.

Na verdade, utilizando a personagem narradora Amy Leatheran, a ideia da escritora é demonstrar todo o preconceito presente nos ingleses: tanto para o bem quanto para o mal.  Amy, uma enfermeira estereotipada, segue seus instintos ao afirmar sobre os demais personagens, não só enganando ao leitor, mas a si mesma durante os acontecimentos. Dessa maneira, através de uma narradora não confiável, acompanhamos os passos de Poirot, desde os achismos de Amy a respeito da vítima – que vê positivamente – até dos demais – que, na maioria das vezes, pré-julga a partir do que acredita ser ou não correto.

Com essa construção, Agatha Christie consegue nos levar, cada vez mais, para longe da resposta. No entanto, devo apontar que ela não esquece de mostrar o funcionamento da vida de um escavador, desde os riscos de roubos até os ganhos com peças encontradas. Para além disso, destaco o nome Mesopotâmia, sabiamente utilizado pela Rainha do Crime, afinal, é um crime sobre o passado e dentro de uma investigação/escavação a respeito dessa civilização. Com um título brilhante, a autora merece os louvores e créditos que damos a ela.

Não menos importante, a autora demonstra – a partir dos preconceitos da narradora –, sentenças contra à relação entre mulheres (e os possíveis ciúmes que possuem, uma excelente ironia); bem como ao preconceito contra os estrangeiros; e àqueles que fogem daquilo que a sociedade designa como bem quistos e aceitos.

É um romance, acima de tudo, divertido. No entanto, em relação ao crime em si, a escritora usa e abusa de recursos fantasiosos demais, o que tira certo brilhantismo da resolução de Hercule Poirot, mais uma vez, julgado pela sua aparência e o seu estrangeirismo. Não é o melhor desenvolvimento de crime da autora, mas um dos mais divertidos, sem sombra de dúvidas.

A edição da editora Harper Collins colorida foi traduzida por Samir Machado de Machado, contando com a capa de Túlio Cerquize. Numa coloração alaranjada, o capista escolheu focalizar peças aleatórias de arqueólogos, ao invés de trazer elementos mais interessantes da narrativa.

 

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. O Cavalo Amarelo. Tradução de Bruna Beber. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2020.