RESENHA #213: SOBRENATURAL OU NÃO

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Quando Michael encontra Ellie durante uma visita ao Passo do Cigano, é amor à primeira vista. Apaixonados, os dois decidem começar uma vida juntos comprando a propriedade abandonada. No entanto, o casal ignora o aviso de uma estranha senhora sobre a maldição que assola o local… E apesar de não acreditarem em seus augúrios, o mal começa a assombrá-los. Logo, o casal descobre que, no Passo do Cigano, muitos acidentes inexplicáveis acontecem. Mas quem — ou o quê — está por trás dessas desgraças?

Quando pensamos na Rainha do Crime, muitas vezes, lembramos das fórmulas que a escritora utiliza. Poirot, por exemplo, reunindo todos os envolvidos para, finalmente, revelar quem foi o assassino; ou Miss Marple demonstrando, de maneira sagaz, quem é o criminoso com algum truque. Entretanto, deve-se destacar que há títulos de Christie que fogem completamente do estereótipo dos romances policiais, Noite sem fim é um deles.

Antes de tudo, esse é um romance de construção. Proposital e equilibradamente, Agatha Christie constrói seus personagens, porque isso é fundamental para a resolução do mistério. Para além disso, traz um jogo de palavras fenomenal do início ao fim. Assim, se prestar bastante atenção, é possível compreender o intuito da história, cujo é mais importante do que a resolução do mistério, o próprio crime e até mesmo os motivos que levaram ao(s) assassinato(s).

Considerando a importância da construção da narrativa, Noite sem fim extrapola conceitos psicológicos muito bem marcados, até mesmo do narrador-protagonista quanto à relação com sua mãe. Não menos importante, traz um personagem capaz de enxergar os outros através do espectro psicológico. Assim, Christie demonstra a importância da psiquê humana, desde as ações de todos os personagens até os discursos que eles proferem.

Não menos importante, como ocorre em alguns outros títulos, por exemplo, É fácil matar e Noite das Bruxas, a escritora brinca com a natureza humana e a (sobre)naturalidade do espaço, fazendo com que o sobrenatural entre em destaque e, por vezes, você se questione se Christie dá crédito aquilo ou não. Inclusive, nesse título, não fica claro até que ponto isso é ou não levado a sério.

Como sempre, a Rainha do Crime destaca o preconceito social diante de alguma minoria. Dessa vez, ela introduz o preconceito contra os ciganos, nômades por natureza, os quais fogem dos estereótipos sociais e, por isso, são vistos negativamente por boa parte da Europa. Assim, até na resolução do crime, Christie denota que preconceitos como esse são incoerentes.

Outros dois aspectos que a escritora traz é a importância social do dinheiro e o quanto a sua presença pode afetar as relações humanas. Não menos importante, também constrói a figura do psicopata, narcísico e obsessivo, de maneira tão coerente que se torna simplesmente sensacional.

Dentre os romances de Christie, eu não diria que Noite sem fim é o mais surpreendente. Contudo, é um dos mais bem construídos e, por conta disso, há certa demora para os fatos centrais ocorrerem.

A edição de capa dura da Harper Collins foi traduzida por Érico Assis, que destaca o jogo de palavras elaborado originalmente. A capa foi produzida por Túlio Cerquize e, diferente de outras capas, acredito que a arte poderia ser outra. Ainda assim, é uma excelente aquisição para completar a coleção colorida da autora, já que a coloração de Noite sem fim é uma das mais bonitas.

 

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Noite sem fim. Tradução de Érico Assis. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins, 2020.