RESENHA #212: SIMPLESMENTE SE ACEITE

AUTORA: Crystal Maldonado
SINOPSE: Charlie Vega é inteligente, divertida, artística e ambiciosa. Também é uma garota gorda que deseja ter um bom relacionamento com seu corpo, mas essa se torna uma tarefa difícil quando todo mundo parece querer que ela seja diferente – mais magra, mais branca, mais discreta…

Tudo muda com a chegada de Brian, o primeiro cara que presta atenção nela. Agora, Charlie terá que aprender a lidar com os desafios que envolvem as paixões da adolescência, a passagem para a vida adulta, a relação com o próprio corpo e, acima de tudo, com o próprio coração.

Fat chance” é uma expressão sarcástica no inglês que, quando utilizada, significa que uma coisa ou não será concretizada, ou a possibilidade de acontecer é quase nula. Também pode estar relacionada a uma teoria elaborada por Robert Lustig sobre o uso do açúcar na alimentação ocidental (ou seja, em dietas). Em ambos os casos, o livro de Maldonado faz uma excelente contrarresposta.

Fat chance: a vez de Charlie Vega trará tudo aquilo que, anteriormente na literatura canônica norte-americana, não era explorado. Tanto a questão do peso quanto da etnia latina eram muito pouco vistas no cenário literário, praticamente um fat chance. Na verdade, a ascensão das literaturas de origem latino-americana – para a Europa e os Estados Unidos, claro – remonta há muito pouco tempo, com a aparição de obras como Pedro Páramo e a presença literata de Jorge Luís Borges, por exemplo. Contudo, mesmo agora, as escolas norte-americanas continuam transmitindo aos seus alunos livros clássicos de origem branca, masculina, elitista e heteronormativa. Fat chance é literalmente o oposto crítico a isso enquanto, dentro da obra, Charlie trará esse questionamento.

Repleto de diversidade, a trama de Maldonado também falará sobre pertencimento. O país norte-americano, graças ao seu período expansionista e de afirmação de possibilidades, traz uma carga multirracial. Assim, personagens de diferentes etnias serão apresentados no decorrer da história, o que faz a escritora destacar o racismo estrutural. As pessoas acreditam que, só por ter descendência, a pessoa é obrigada a saber algo da cultura ancestral da família. Ao fazer isso, as pessoas destacam que a sua presença não é algo natural, deslocando o indivíduo de seu país de origem. Ao mesmo tempo e por outro lado, há aqueles que acreditam que a pessoa é obrigada a saber da cultura ancestral para poder valorizá-la. A questão é que: ninguém é obrigado a nada.

Para além disso, Fat chance trará outras lições importantes, como a busca pela aceitação do próprio corpo, a procura por relacionamentos saudáveis, ou até mesmo manter-se fiel a quem você é. Por conta dessas características, acredito que o livro deveria ser visto como uma leitura essencial para adolescentes no geral

Entretanto, nem tudo são flores. Ainda que o livro seja inclusivo e muito interessante, acredito que o auto centrismo – próprio da adolescência – seja um ponto de contradição da narrativa. Claro que essa pode ser uma crítica e uma construção proposital de Maldonado, afinal, a adolescência é um momento de confronto com os pais e o mundo. No entanto, por vezes, o auto centrismo de Charlie é incômodo e vai de encontro a tudo que ela prega no decorrer da obra. Por exemplo, é incoerente que Charlie não perceba o racismo e a homofobia que, muito provavelmente, sua melhor amiga sofre.

Compreendo que, através de seu egocentrismo, ela esteja focada em seus próprios problemas, da mesma forma que a melhor amiga parece ser incapaz de perceber a baixa autoestima gerada pelo peso (isso, claro, no ponto de vista de Charlie). No entanto, por mais compreensível que seja, causa muito desconforto durante a leitura.

Não menos importante, o confronto com a mãe não fica bem resolvido e nem mesmo muito claro, ainda que tenha uma cena própria para isso. De novo, através de seu egocentrismo, entendemos que a mãe é uma personalidade tóxica na vida de Charlie, ainda que tenha, possivelmente, boas intenções. Mesmo no final do livro.

Outro aspecto que se tornou incômodo foi o plot twist que, ao meu ver, era desnecessário, principalmente e de novo, considerando que Charlie Vega fale sobre autonomia e liberdade daqueles que não têm voz. E, para além disso, Brian parece mais um personagem unidimensional que só pensa em romance do que um garoto de verdade. Ainda que, é claro, seja comum no gênero.

No mais, devo destacar que a contradição apresentada, por mais que tenha me incomodado, pode ser proposital. Isso se deve, sobretudo, a como a aceitação do peso e a necessidade de emagrecer, constantemente, estejam em conflito na nossa cabeça, visto que vivemos em uma sociedade que preza acima de tudo a aparência das coisas.

Mesmo com tudo isso, ainda é um romance que indico, principalmente para o público adolescente. Aceitar-se é uma necessidade que temos; nos importarmos com a sociedade, não.

A tradução de Raquel Nakasone é boa, não me lembro de ter visto muitos erros durante a leitura. Vale destacar que a edição é lindíssima, a capa tem detalhes com um brilho delicado e uma arte sensacional. O marcador, inclusive, é um dos mais lindos que já vi!

 

REFERÊNCIA

MALDONADO, Crystal. Fat chance: a vez de Charlie Vega. Tradução de Raquel Nakasone. 1ª ed. São Paulo: Gutenberg, 2022.