RESENHA #211: SOBRE CORAÇÕES PARTIDOS

AUTORA: Stephanie Garber
SINOPSE: Criada na loja de antiguidades de seu querido pai, cercada por lendas de seres poderosos e imortais, Evangeline Fox cresceu acreditando em histórias de amores verdadeiros e em finais felizes. Mas essas crenças se veem abaladas quando a jovem descobre que o amor de sua vida está prestes a se casar com outra pessoa.

Seu desespero é tamanho que ela aceita fazer um acordo com o charmoso e perverso Príncipe de Copas, famoso por seu poderio mítico. Dizem que seu beijo é tão encantador que vale a pena morrer por ele, e é justamente isso que o príncipe pede em troca: três beijos de Evangeline a serem dados no momento e no local escolhidos previamente.

Logo, Evangeline descobre que negociar com um imortal é um jogo muito perigoso. Afinal, o Príncipe de Copas quer muito mais dela do que apenas beijos. Ele tem outros planos para a jovem, e tais intenções podem tanto se tornar o tão sonhado “felizes para sempre” quanto a mais requintada tragédia.

Você já teve seu coração quebrado? Acho que, pelo menos uma vez na vida, nós todos já sentimos uma dor no peito incontrolável, tendo como companhia uma vontade de gritar ou chorar profundamente. Quando pensamos em “coração partido”, de imediato, vem em nossa mente uma rejeição amorosa.

Mas um coração pode ser quebrado de infinitas maneiras e por diferentes pessoas. Ou até mesmo por acontecimentos. Garber, em Era uma vez um coração partido, ainda que use um plano de fundo romântico (ou pseudorromântico, na verdade), vai nos mostrar que entende de quantas maneiras uma pessoa pode se sentir vazia e solitária no mundo.

Entretanto, o brilhantismo da ideia da autora não está no fato de usar simplesmente a multiplicidade de noções de “um coração partido”, mas fazer isso dentro de um universo de contos de fadas. Os contos de fadas primevos não são meigos, mas geralmente acabam com um final feliz. Assim, ao alocar sua protagonista para um ponto que fuja desse final, ela brinca com a ideia do que é um conto de fadas.

Com quem a princesa deve terminar? Quem deve salvá-la? E por que ela não pode salvar a si mesma? Essas e outras perguntas têm sido feitas nos recontos dessas histórias milenares, Garber também não as deixa passar, trazendo um pouco de tudo para sua narrativa. Desde referências aos contos, principalmente Cinderela, até a origem e a transmissão de todas essas tramas que continuam encantando gerações.

Para além de uma reflexão sobre a origem e a presentificação dos contos de fadas, a escritora considera como uma pessoa, antes de ter seu coração partido, pode ser precipitada e, muitas das vezes, inocente. Assim, a personalidade da protagonista, Evangeline Raposa – que eu achava melhor não terem traduzido –, é uma representação arquetípica disso. Ela é boa, inocente e sonhadora, também chega a conclusões antes mesmo que os fatos se apresentem. Ao mesmo tempo, há características próprias e feministas: é muito inteligente e, na maioria das vezes, consegue escapar das situações sem depender de alguém.

Por outro lado, temos aquele que é o arquétipo do coração já partido: Jacks. Além de ser um Arcano – ou seja, uma representação desse sentimento –, o personagem traz consigo a bagagem da trilogia anterior, Caraval. Através dele, Garber consegue mostrar como as pessoas são capazes de se fechar em si mesmas, esconder suas feridas e, ainda pior, fingirem que estão bem quando claramente não estão. Com essa ideia, podemos esboçar toda a personalidade do Príncipe de Copas: debochado e sofrido.

Era uma vez um coração partido é um romance com elementos fantásticos, cuja ideia é criar uma história de amor em cima de um mundo fantástico, adaptado dos contos de fadas originais. Assim, sua construção de mundo não é tão explorada quanto poderia ser – o que seria bem interessante.

O novo lançamento da editora Gutenberg é divertido e gostoso de ler. É uma história capaz de trazer lições e certa intriga política, porém, não se aprofunda tanto nisso quanto faz com o romance (o que, de fato, é coerente com a proposta da obra). Os personagens também são cativantes, principalmente o casal principal, Evangeline – com seu jeito altruísta – e Jacks – um personagem que finge ser egoísta, mas não é tanto assim.

Contudo, devo destacar que a narrativa segue a perspectiva de Evangeline, por conta disso, senti falta de uma construção mais completa de outros personagens, principalmente de Jacks. Da mesma forma que em A vida invisível de Addie Larue, a protagonista culpabiliza e difama a criatura com quem selou o pacto, e, por isso ser incoerente, senti incomodo durante a leitura.

Não menos importante, também preciso destacar que, durante a leitura, senti que, ao invés de explicar melhor o porquê de Evangeline ter procurado Jacks (considerado algo extremo e perigoso na narrativa), Garber tornou essa ação ainda mais frágil e inexplicável. E, quanto ao final do livro, ao meu ver, o plot twist foi um pouco forçado, parecendo ter sido criado apenas para causar impacto.

Como há elementos da série anterior, devo destacar que – para compreensão – não é necessário ter lido Caraval, no entanto, o final de alguns personagens da série será revelado durante a leitura. A tradução de Lavínia Fávero está boa, ainda que eu ache que a tradução do sobrenome da protagonista não tenha sido uma escolha acertada.

Assim, se você quer se divertir e passar um tempo com um livro mágico que reconta as histórias de contos de fadas, Era uma vez um coração partido é uma excelente escolha. Muito melhor do que ter seu coração partido por um livro ruim.  

 

REFERÊNCIA

GARBER, Stephanie. Era uma vez um coração partido. Tradução de Lavínia Fávero. 1ª ed. São Paulo: Gutenberg, 2022.