RESENHA #210: ENTRE GUERRA E HISTÓRIA

AUTORA: Beverly Jenkins
SINOPSE: A missão de Valinda Lacy na agitada e quente Nova Orleans é ajudar a comunidade de ex-escravizados a sobreviver e florescer através do estudo. Só que em pouco tempo ela descobre que, ali, a liberdade também pode ser sinônimo de perigo.

Quando bandidos supremacistas destroem a escola que ela montou e tentam atacá-la, Valinda corre para salvar sua vida e vai parar nos braços do heroico capitão Drake LeVeq.

Arquiteto nascido em uma família tradicional de Nova Orleans, Drake tem um profundo interesse pessoal na reconstrução da cidade. Criado por mulheres fortes, ele logo é conquistado pela determinação de Valinda. E não consegue parar de admirá-la – nem de desejá-la.

E quando o pai de Val exige que ela volte para casa, em outro estado, para se casar com um homem que ela não ama, seu espírito indomável atrairá Drake para uma disputa irresistível.

Muitas disputas foram travadas nas Américas, mas, de acordo com historiadores, uma das mais sangrentas foi a Guerra de Secessão, também conhecida como Guerra Civil Americana. Nesse contexto, a parte Norte – com indústrias e abolicionista – confrontou a parte Sul – latifúndios e escravistas.

Depois de uma intensa batalha, A União – a parte Norte – venceu a disputa contra os Confederados – a parte Sul separatista. Após esse embate, a abolição foi declarada, porém, por mais declarada que fosse, houve um levante por parte dos sulistas que não acreditavam na possibilidade da equidade entre brancos e negros. Foi nessa mesma época em que surgiram grupos como a Ku Klux Klan.

A obra de Jenkins se passa alguns anos após a Guerra Civil, mostrando certo levante da população negra dos Estados Unidos – e um dos períodos em que tiveram mais força, voltando a ter melhor status social só no século XX. Era um momento de revolução: a mão de obra escrava estava livre e desejava ter direitos, como estudar. No entanto, para isso, precisavam de auxílio do governo e daqueles a sua volta.

Dessa maneira, Jenkins aborda muitas questões importantes para a época, como a diferença entre negros do Norte e do Sul, além dos creoles, pessoas que tinham origem miscigenada. Tais indivíduos, por exemplo, não queriam relações com ex-excravos, já que o resto da população – no caso, a parte branca –, iria coloca-los no mesmo patamar.

Diversos marcos históricos, no decorrer da obra, são abordados de maneira superficial, mas fazem com que entendamos a gravidade da situação da época e, mesmo com a libertação dos escravos, a luta estava longe do fim – continua até hoje.

Contudo, por mais que tenha protagonismo negro e algumas passagens históricas muito interessantes, o título de Jenkins – como muitos romances de época – deixa bastante a desejar no quesito enredo e personagens. As personagens são revolucionárias demais e, ao dizer isso, são mulheres fortes e independentes que não são coerentes com o contexto histórico que elas pertencem, fugindo da palpabilidade. Há mulheres independentes e fortes dentro dos contextos históricos de época, porém, elas acreditavam nas condições sociais que elas estavam inseridas. Fazê-las muito além disso, quase contemporâneas a nós em pensamento, soa um pouco absurdo.  

Também devo acrescentar que temos um enredo com tantas conveniências que cheguei a rir em algumas passagens, como, por exemplo, a amante resolver ir embora sem mais e nem menos. É um livro, como todos os romances de época, com muitas pitadas de clichê. É bom que tenha, porém, deve-se ter uma medida. Não foi o caso. Quem gosta de representatividade e clichês, terá uma obra incrível nas mãos, pois o título de Jenkins entretém e, ao mesmo tempo, conta a história de todo um povo deslegitimado. No entanto, se você tem limites para clichês, tenho certeza que esse título pode causar um pouco de incômodo, mas, ainda assim, caso queira conhecer o período histórico pelo ponto de vista negro e de maneira mais descontraída, é uma boa pedida. Bem melhor que muitos romances de época consagrados, diga-se de passagem.  

REFERÊNCIA

JENKINS, Bervely. Ventos de Mudança. Tradução de Isadora Sinay. 1ª ed. São Paulo: Arqueiro, 2021.

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