RESENHA #209: A FUGA DA LUA

AUTORA: Nadia Hashimi
SINOPSE: Casada com um engenheiro completamente apaixonado por ela, Fereiba leva uma vida feliz em seu mundo de classe média, no Afeganistão. Porém, tudo isso implode quando o país é imerso na guerra e o Talibã assume o poder.

Seu marido vira alvo do novo regime fundamentalista e é assassinado. Forçada a fugir de Cabul com os três filhos, Fereiba só tem uma esperança de sobreviver: atravessar a Europa até a casa da irmã, na Inglaterra.

Contando com documentos falsos e a bondade de estranhos que conhece pelo caminho, ela tem que fazer a perigosa passagem para o Irã sob o véu da escuridão. Exaustos, eles conseguem chegar à Grécia, mas, numa reviravolta apavorante, seu filho adolescente, Salim, some.  Será que Fereiba terá coragem de seguir viagem com a filha e o bebê e deixar o menino para trás, no mundo obscuro dos refugiados que vagam pelas ruas europeias?

O mundo está mudando a todo momento, mas, por vezes, ele parece se repetir. Não de fato o mundo, mas as pessoas que vivem nele: o tempo todo a história parece acontecer de novo. Atualmente, a Ucrânia sofre com os ataques da Rússia, porque o presidente russo acredita que o país pertence a eles. É histórico, não é mesmo? Estavam lá, no passado, sendo a União Soviética.

No entanto, se olharmos um pouco mais abaixo, veremos que não é só na Ucrânia que o passado faz uma sombra, mas também no Afeganistão. Mais uma vez, graças ao posicionamento norte-americano, o país sofre com a presença do Talibã.

O Talibã, para quem não sabe, é um grupo extremista que tomou o poder nos anos noventa, arrecadando simpatia da população por causa da presença da União Soviética, cujas armas atacavam, na época, o país do Oriente Médio. Seu nome provém da língua pashto e significa “estudantes”. Eles se proclamam revolucionários, bem como aprendizes/protetores das leis islâmicas. Tais leis consistem em uma série de normas, como, por exemplo, o mantimento da barba e, mais importante, a proibição de mulheres estudarem ou trabalharem. Cobertas com a burca, o único direito da mulher era ficar em casa enquanto cuidava do marido e dos filhos.

Um dos grandes ícones de resistência, vencedora do Prêmio Nobel da Paz, é Malala. Conhecida por ter enfrentado o Talibã pacificamente, ela só era uma menina que queria estudar quando tomou um tiro na cabeça. Assim, é possível perceber o quanto esse regime foi/é nocivo para a população afegã que, ao descobrir a retomada do poder, desesperou-se para sair do país.

Lua no céu de Cabul, de Nadia Hashimi, nos deixa nesse exato cenário: a primeira ascensão do Talibã. A protagonista, Fereiba, é uma mulher que não tem mãe, como, posteriormente, não terá pátria. É interessante perceber que, durante as primeiras cem páginas, encontraremos a infância e adolescência da personagem, consistindo numa metáfora perfeita e muito bem construída sobre pertencimento, algo muito complexo quando estamos falando sobre pessoas refugiadas.

Para além da metáfora terra-mãe, através das diferentes fases da vida de Fereiba, também encontraremos a drástica mudança da política do Afeganistão, principalmente, no que tange ao posicionamento do feminino dentro da cultura afegã. As mulheres não tinham muita liberdade (como temos hoje), mas, pelo menos, podiam estudar, trabalhar e vestir-se como queriam. Contudo, com a ascensão do Talibã, é possível acompanharmos as dificuldades enfrentadas não só pela protagonista, mas por todas as mulheres que ali viviam. Esse cenário inspirará obras como O conto da aia, de Margaret Atwood.

Com o apagamento do feminino como força individual e a guerra, acompanharemos, através da figura de Salim, filho da protagonista, a perda da infância de milhares de crianças. Essas crianças que foram obrigadas a amadurecer rápido demais pelas responsabilidades de cuidar da casa; o silenciamento propagado pelo vazio da liberdade da voz; e as perdas, incontáveis perdas de conhecidos, amigos e família.

Hashimi, de forma brilhante e muito bem escrita, nos transporta para o passado e, ao mesmo tempo, para o presente, já que a situação dos refugiados permanece. É um livro denso, complexo e com muitas camadas para além da superfície: é um livro sobre a verdade nua e crua do sofrimento de toda uma população que não sabe para onde ir, não é bem aceita em nenhum lugar, mas, mesmo assim, ainda tem esperança.

Justamente por conta disso o final aberto também é muito coerente. É uma situação que permanece no hoje, que nem sempre tem um final feliz. É um mundo em que a sorte e a inteligência precisam estar juntas o tempo todo, como a lua que está sempre no céu.

No decorrer do título, além de emocionada e revoltada, também tive o prazer de desvendar um pouco – junto com a protagonista – a literatura afegã. Alguns poetas, como um ancestral de Hashimi, aparecem através de seus textos. É uma cultura riquíssima e que temos pouco acesso.  

Com uma contextualização histórica impecável, um texto muito bem escrito e uma sensação ambígua entre revolta e esperança, Hashimi, como em A pérola que rompeu a concha, traz outro título sensacional. A tradução de Livia de Almeida está excelente, tendo poucos erros no caminho (confesso que, por estar muito envolvida, não me atentei a revisão como geralmente faço).  

REFERÊNCIA

HASHIMI, Nadia. Lua no céu de Cabul. Tradução de Livia de Almeida. 1ª ed. São Paulo: Arqueiro, 2021.

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