RESENHA #208: UM ASSASSINO PIEDOSO

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Poirot recebe uma carta inusitada: nela está anunciada a data e o local de um crime. Assinada apenas como “ABC”, o remetente clama ser tão engenhoso que nem mesmo o brilhante detetive seria capaz de pegá-lo. Após o crime de fato ter sido cometido, Poirot consegue uma única pista ― a de que o assassino escolhe suas vítimas em ordem alfabética ― e precisa correr contra o tempo antes que o terrível homicida continue a avançar nas letras…

Entre muitos dos romances da autora que li, esse é um dos meus favoritos. Assim, como de praxe, é muito fácil falar de livros que não gostamos tanto; mas é quase impossível ressaltar o suficiente livros que amamos. Os crimes ABC, uma das obras mais inusitadas da autora, considerando a trama, é, sem sombra de dúvida, uma das resoluções mais surpreendentes, não só porque foge do estereótipo apresentado por Knox, mas porque ressalta algo que incapacita toda a sociedade inglesa: a ideia de um serial killer.

Uma das passagens mais brilhantes desse livro é Poirot temendo a presença de um serial killer de novo, porque é a insanidade de homens como esse, de acordo com o detetive, que pode afetar a sanidade dos demais. Tal frase, a priori, pode estar relacionada ao medo constante e as incertezas de uma população assustada, mas não é só sobre isso.

Agatha Christie é sempre muito racional enquanto pontua seus criminosos e crimes, justamente porque entende que nenhum ato grandioso como esse foge de uma relação coerente com a realidade. A coerência, muitas das vezes, está relacionada aos pecados, como a ganância, a avareza, a vaidade etc. Por conta disso, um crime que pontua um serial killer denota, acima de tudo, como alguém pode utilizar dos métodos de um grande assassino para cometer seus próprios delitos. Isso, no decorrer da história da criminologia, é perceptível, pois muitos já tentaram imitar, pela simples notoriedade, alguém abominável.

Ao temer esse aspecto, a Rainha do Crime lança ao enredo mais possibilidades, que podem ou não se concretizar. Para além disso, também destaca a figura do detetive, como similar ao assassino; e, também, como alguém pode saber algo, inconscientemente, derivado da repetição, ou seja, daquilo que já sabe pela experiência. Ao mesmo tempo, não esquece de pontuar o que é importante em um caso como esse: seria mais importante saber a aparência do assassino para capturá-lo ou entender suas motivações para saber o próximo passo?

Com diversas questões que podem ter diferentes respostas e interpretações, Christie faz o que sempre trouxe de melhor para suas obras: as reflexões que pertencem ao homem urbano, ao caos da cidade e da população local, que adentram ao indivíduo. Com isso, constrói um romance pautado em aspectos sociais e psicológicos como ninguém.

Somado a isso, também demonstra certo conhecimento quanto à vida da mulher na sociedade. O serial killer é “piedoso”, pois assassina mulheres que passam por abusos, pessoas que estão sofrendo por conta de seus pares. Dessa maneira, encontramos no título a ambivalência, bem como o conceito que, a sociedade como um todo, tem de mulheres idosas, mulheres jovens e homens ricos. Dessa forma, a autora, brilhantemente, pontua com quem a sociedade se importa de fato, mostrando suas hipocrisias.

Conta também com críticas, como sempre, ao estrangeiro e sua deslegitimação social, em uma sociedade xenofóbica. Não obstante, o que ocorre em alguns outros títulos, pontua o descaso com os soldados que, para defender o seu país, tornaram-se invisíveis e repletos de sequelas.

Esse romance tem como narrador o Hastings, amigo fiel de Hercule Poirot, da mesma forma que Watson é para Sherlock Holmes. Por conta disso, o desenvolvimento do mistério pode soar um pouco confuso às vezes, porém, diferente de alguns títulos, como Os quatro grandes, nas entrelinhas, a resolução fica clara, justamente porque o Hastings já sabe o desfecho. Então, após uma primeira ou segunda leitura, as dicas estão presentes e claras para o leitor.

A capa conta com uma máquina de escrever como arte, o que combina e muito com o título, já que a força motriz é o envio de cartas para o detetive belga. As cartas são excepcionais, para além de dicas, sobre as condições psicológicas do assassino. As fontes utilizadas também dão certa resposta quanto à resolução do mistério. Por conta disso, a capa é brilhante. Não menos importante, a tradução de Érico Assis é boa, bem melhor do que a anteriormente publicada pela editora, contudo, há alguns termos selecionados que podem dificultar a compreensão do leitor quanto ao que a Rainha do Crime queria dizer.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Os crimes ABC. Tradução de Érico Assis. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2020.