RESENHA #207: DESCREVER E DESCREVER

AUTOR: Ursula K. Le Guin
SINOPSE: Enviado em uma missão intergaláctica, Genly Ai, um humano, tem como missão persuadir os governantes do planeta Gethen a se unirem a uma comunidade universal. Entretanto, Genly, mesmo depois de anos de estudo, percebe-se despreparado para a situação que lhe aguardava. Ao entrar em contato com uma cultura complexa, rica, quase medieval e com outra abordagem na relação entre os gêneros, Genly perde o controle da situação. É humano demais, e, se não conseguir repensar suas concepções de feminino e masculino, correrá o risco de destruir tanto a missão quanto a si mesmo.

Como começamos a querer voar? Você já se perguntou isso? Esse desejo de ultrapassar barreiras e viajar pelo céu só foi possível porque, antes, percebemos essa capacidade nos pássaros. Assim, antes de perguntar como “começamos a querer voar”, devemos começar a perguntar: qual é o poder da imaginação?

Todo dia, você imagina. Pode imaginar que quer comprar uma casa ou visitar uma cidade específica. Não importa, você imagina. Você sonha. Mas você consegue sonhar com algo que nunca foi imaginado antes? A resposta é não, muito provavelmente. Mas, então, como os homens começaram a imaginar viagens intergalácticas e naves espaciais?

Por que esse tipo de imaginação é tão fora da realidade se observamos, desde muito tempo, as estrelas e as aves? Por que uma nave soa estranha aos nossos ouvidos se, hoje, temos carros? A imaginação é criativa, mas não necessariamente inventa uma realidade completamente distante do que já existe. Ursula K. Le Guin também.

Então, entendendo que sem as aves não teríamos aviões; sem os peixes, submarinos não fariam sentido, a função da ficção de Le Guin é a de uma cientista: descrever o que existe, simplesmente isso. E não é o que a ficção científica como um todo faz?

Assim, dentro do título A mão esquerda da escuridão, encontramos uma obra simplesmente incrível. De maneira antropológica, o livro descreve as ações humanas; de forma sociológica, Le Guin traça ameaças e conflitos políticos; não esquecendo da importância dos mitos, história e geografia dentro desses dois espectros do homem e das relações entre eles construídas.

A partir dos olhos de um estrangeiro, acompanhamos uma sociedade em que as questões de gênero são muito diferentes. Nós, seres humanos do planeta Terra, entendemos uma bipartição através do órgão genital, considerando o feminino e o masculino como partes indissociáveis de quem somos. No entanto, essa divisão não se limita a biologia, mas a relação que esse fator biológico traça no meio, afetando a vida de todas as mulheres até hoje. Esse foi um questionamento presente na época do lançamento do título, através dos círculos feministas e, brilhantemente, Le Guin trará o conceito da “ambissexualidade” através de uma sociedade em que o gênero perde o seu valor social: ninguém tem sexo definido até estar no kemmer, uma espécie de mutação corporal que lembra o cio.  

Dessa maneira, Le Guin inova ao trazer essa discussão para o círculo intelectual e da ficção científica, descrevendo a possibilidade de uma mulher não ser subjugada somente pela sua sexualidade, até porque não existe essa terminologia. Uma forma brilhante que, ao pensar na perspectiva de um terráqueo, é subvertida ao seu ponto de vista masculino e retrógrado, fazendo com que o texto possa soar machista quando a proposta é ser crítico.

Não menos importante, ao traçar o comportamento humano e político, a obra abarcará o estrangeiro, as diferenças entre duas sociedades. Os homens, independente de onde vem, são tão diferentes uns dos outros? A autora, com uma narrativa simples, vai mostrando, pouco a pouco, como as vozes narrativas se mesclam e, por vezes, acabamos confundindo os personagens narradores. Todos somos iguais, basta percebermos isso quando olhamos para o lado (por que damos poder a uma fronteira imaginária?).

Numa crítica brilhante, de maneira muito bem elaborada, Le Guin vai mostrar a força e o poder da ficção científica de pensar nas possibilidades, bem como de enxergar a perspectiva do outro. Traçará muitos conceitos e brincará com todas as possibilidades do homem, trazendo influências orientais tanto quanto ocidentais para sua narrativa.

É uma obra sem igual e que tem muito para nos apresentar.

A tradução de Alexandria é muito boa, tal como o material e a apresentação da edição da editora Aleph. A capa tem uma arte coerente e interessante, que combina com a odisseia sofrida pelos personagens. Numa excelente diagramação, as páginas simplesmente fluíram pra mim e não consegui largar até terminar.

  

REFERÊNCIA

LE GUIN, Ursula K. A mão esquerda da escuridão. Tradução de Susana L. Alexandria. 3ª ed. São Paulo: Aleph, 2019.

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