RESENHA #206: O MITO DA APARÊNCIA

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Em uma festa de Dia das Bruxas organizada por Mrs. Ariadne Oliver, Joyce, uma adolescente com o costume de mentir para chamar a atenção, revela já ter testemunhado um assassinato. Ninguém acredita nela, mas, poucas horas depois, seu corpo é encontrado afogado próximo a uma bacia cheia de maçãs. Diante de um caso tão tenebroso, Mrs. Oliver decide pedir ajuda para a única pessoa que considera capaz de encontrar o culpado: Hercule Poirot.

Durante épocas festivas, sempre buscamos obras que se alinham com as temáticas dessas festas. Por exemplo, durante o Natal, buscamos títulos que se relacionam às grandes festas comemorativas, tanto do Papai Noel quanto do ano novo. O mesmo acontece com o Halloween, uma data que se propagou pelo mundo graças a ascensão americana.

Conhecido por ser um período de transitividade, o Halloween, ou seja, a véspera do dia de todos os santos (“all hallows eve”), também nomeado pelos celtas como Samhain, foi uma comemoração muito importante que representava não só a presença dos mortos entre os vivos, como também designava o período da passagem de um ano para o outro e a partida do verão. Assim, o Halloween, através de suas tradições, rememora o que era importante no passado, como a colheita, a vida e a morte. Um rito vivo que, por ser vivo, foi se modificando para se tornar o que conhecemos nos dias atuais. 

Em A Noite das Bruxas, título da Rainha do Crime, encontramos referências ao Halloween, embora não tão relacionadas com a tradição americana, como muitos conhecem. Dessa maneira, ainda que alguns possam se decepcionar com a falta de conexão com a comemoração, a obra traz múltiplas referências à data em questão. Dentre elas, a colheita é representada pelo jardim, a mitologia ganha um destaque imenso, mesmo que a grega, através de Ariadne Oliver, o “fio condutor” da narrativa; da mesma forma que a maçã e a água representam aspectos intrínsecos tanto do conhecimento quanto da vida. Não menos importante, os celtas praticavam sacrifícios para algumas deidades, como a da agricultura.

Somado às referências culturais ao “verdadeiro Halloween”, no sentido originário, Christie demonstra, de maneira excelente, seus conhecimentos literários, tanto de Shakespeare e suas tragédias quanto dos mitos. Não por acaso, já que ambos estão conectados fortemente com a proposta do enredo. Também pontua aspectos sociais de maneira brilhante, ressaltando, mais uma vez, a questão do estrangeiro, e também a taxa de mortalidade infantil e feminina.

Considerando os aspectos sociais, a autora aborda como a mulher e a criança são vistas como presas mais fáceis diante do coletivo, tornando-as agradáveis aos que possuem péssimas intenções. Diante disso, Christie revela um aspecto fundamental do detetive Hercule Poirot: mesmo incomodado, cansado e dolorido, ele irá manter a pose, porque a pose é o que lhe faz ser minimamente aceito dentre os ingleses.

Assim, brilhantemente, Christie não só nos apresenta características do detetive belga, como da sociedade e das relações construídas entre estrangeiros, mulheres e crianças com o todo. A própria Joyce, uma menina assassinada, necessitava ser aceita. E, cabe perguntar, quantas loucuras cometemos ou coisas que dizemos para sermos aceitos?

Outra conexão social muito bem elaborada pela Christie, somado àquele que precisa ser aceito, é o embate entre educação e oportunidade. A escritora questiona, através de dois personagens, se um é suficiente sem o outro e, se mesmo juntas, são o suficiente para alguém se tornar alguém bom. As mazelas da vida de alguém justificam suas atitudes para com os outros? Ou não? Para alguém que lida com crimes, essa pergunta é fundamental.

A edição de capa dura da nova coleção da Harper tem um tom esverdeado que combina com a arte e a fonte utilizadas por Túlio Cerquize, a tradução de Bruna Beber é agradável, embora algumas passagens possam causar confusão por estarem truncadas.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Noite das Bruxas. Tradução de Bruna Beber. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2020.