RESENHA #205: TRATADO GÓTICO FILOSÓFICO

AUTOR: Oscar Wilde
SINOPSE: O Retrato de Dorian Gray combina o apuro literário e estético de seu autor com uma trama sombria, pontuada por paixões, crimes e a brilhante e sarcástica verve wildeana. Publicado em 1890 na revista norte-americana Lippincott’s, o romance foi relançado em livro um ano depois em uma edição que censurou diversos trechos da obra. Dorian Gray primeiramente ofendeu uma geração vitoriana que encontrou na relação entre os amigos Dorian, o jovem retratado, Basil, o pintor apaixonado, e Henry, o lorde cínico, “o amor que não ousava dizer o seu nome”. Depois, fascinou leitores, críticos e artistas, que viram no enredo que remete ao mito de Fausto o Evangelho de um decadentismo que acredita em uma vida de arte, prazer e fascínio sensorial. Tudo isso em meio a um fim de século no qual a convenção e a moralidade corroíam qualquer prazer que a existência humana poderia desfrutar.

Muitos autores, como Dostoiévski, eram contra a construção filosófica, a proposta do Ocidente de racionalização e pensamento, europeia. Essa ideia, sobretudo, adentra ao cenário geopolítico de hoje, em que há uma disputa marcada entre grandes potências mundiais.

E, por mais que isso pareça não ter nada a ver com O Retrato de Dorian Gray, acredito que tenha aspectos em comum. Quando penso na história de Dorian, antes de tudo, lembro-me da dualidade vitoriana e dos anjos e demônios que justificam nossas ideias e reflexões. Nessa sociedade, tão prolífera em sua literatura, encontramos uma bipartição entre o lado bom e o lado mau, próprios de um maniqueísmo da elite, em que o bom e o belo eram indissociáveis, como nos tempos antigos.  

Assim, entre Basil – o pintor – e Henry – o crítico –, temos a personalidade de Dorian – a inspiração helênica e austera (o que é uma piada por si só) – sendo moldada, lapidada para atender aos desejos daqueles que usufruem da arte. Mas e se a arte vive por si mesma, como nos conta o esteticismo, que Oscar Wilde cultivava? Por isso, há, em O Retrato de Dorian Gray, para além da construção do gótico, uma concepção filosófica, que nos conta sobre as hipocrisias sociais, através das atitudes da inspiração/da arte. Dorian Gray, um dórico cinzento que não é bom, nem mau, mas se diz influenciado ao viver entre o artista e o crítico.

Então, podemos retomar a ideia de como Dorian se comporta e quem de fato ele é: Dorian é tão austero quanto à arte dórica. Isto significa dizer que não é ele quem é maleável entre o bem (Basil) e o mal (Henry Wotton), mas sim o mundo, os artistas e os críticos que são levados pela arte até a decadência. Com isso, Oscar Wilde também brinca com o decadentismo estético e narrativo, em que há a deterioração dos personagens e dos espaços através da beleza efêmera, como a das flores. É esse o combate de Dorian: a fuga da efemeridade, através do desejo de permanecer. Com isso, Wilde traz um pacto fáustico, em que, a inspiração vence a arte numa primeira instância, deteriorando a concepção de arte em prol da realidade, numa ideia subversiva.

Contudo, com a acepção filosófica do belo e do bom como unos, a decadência de Dorian Gray se dá através do duplo, do que a literatura chamará de doppelgänger, esse personagem que se divide, como em William Wilson, de Edgar Allan Poe, entre o seu reflexo/pintura e sua persona inspiradora. Através disso, Oscar Wilde nos brinda de novo com outra acepção: a arte em suas múltiplas manifestações brinca dentro do texto. Uma construção meta-artística, em que o teatro e a pintura também ganham espaço ao lado do texto escrito e do tratado gótico filosófico que é O Retrato de Dorian Gray, porque, antes de mais nada, essa obra é um tratado sobre a arte e sobre o belo.    

O que é o belo? O que é a arte? Conectando essas perguntas a críticas pungentes de Henry Wotton, o autor, por mais que diga que a moral escapa das páginas de O Retrato, afinal, faz parte do esteticismo, ele inverte os valores sociais e acaba nos trazendo reflexões acerca de como a sociedade se espelha na própria construção artística e vice-versa, num jogo sem fim.

Não menos importante, dentro dessa discussão, entre a arte e o belo, há o hedonismo, a busca pelo prazer. Por que produzimos arte? Por que buscamos o belo? Uma das respostas para essa pergunta seria: pelo prazer, seja estético ou de qualquer fim. Assim, a arte se mescla ao belo e o belo faz o mesmo com a arte, fazendo com que esse diálogo filosófico adentre ao gótico de forma sublime: numa busca incessante para fugir do monstro que habita dentro de quem somos, porque buscamos o prazer, o belo e o bom; e, muitas das vezes, ser belo e/ou ter prazer se aliam a ideia de poder. E qual é o maior prazer que uma nação pode ter senão ter poder o suficiente para controlar as demais?

Um dos meus únicos problemas, por mais que eu compreenda a proposta apresentada por Wilde, é a representação do feminino, principalmente nos discursos de Henry Wotton. O feminino é uma peça vulgar dentro desse cenário que se assemelha a realidade vitoriana, bem como a Antiguidade Clássica. Por mais que eu compreenda e seja uma possível crítica wildeana, há uma insatisfação pessoal quanto a isso. No entanto, não espero que isso atrapalhe a experiência de ninguém.

Não menos importante, devo ressaltar que existem duas versões de O Retrato de Dorian Gray. A versão lida para essa resenha foi a original, de treze capítulos, diferente da reformulada por conta de um processo judicial, de vinte capítulos. Minha recomendação, de quem já leu as duas, é que busque a original (treze capítulos), porque a proposta de Oscar Wilde fica mais nítida, bem como a relação homoerótica entre os personagens é mais explícita, muito coerente com a ideia grega que o autor capta do arcabouço filosófico que dispôs no texto.

A edição lida e comentada foi a cedida em parceria pela editora Darkside. Esta é, sem sombra de dúvidas, uma das melhores versões em português da obra, bem como um dos melhores livros apresentados pela editora. Há textos de apoio – que por mais que eu não concorde com tudo – excelentes, poucos erros de revisão, comentários e notas de rodapé muito pertinentes e até mesmo curiosidades das quais eu nunca tinha ouvido falar (o que deixa qualquer um curioso com a tese do autor das notas de rodapé, Luiz Gasparelli Junior), como a relação possível entre Wilde e Jack Estripador. Paulo Cecconi foi um excelente tradutor tanto quanto Enéias Tavares, que traduziu os poemas de Wilde, extras dessa edição. Também há riquíssimas ilustrações, muito coerentes com a temática gótica, de Henry Weston Keen.         

REFERÊNCIA

WILDE, Oscar. O Retrato de Dorian Gray. Tradução de Paulo H. Cecconi. 1ª ed. Rio de Janeiro: Darkside Books, 2021.

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