RESENHA #204: A MORTE IMPOSSÍVEL

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Uma mulher à beira da morte se confessa a um padre, que, na mesma noite, é assassinado. O criminoso o revista tão abruptamente que rasga sua batina. O que ele estava procurando? Há alguma relação entre a morte do padre e a confissão da mulher? Mark Easterbrook está determinado a descobrir, e a única pista que tem é uma lista com nove nomes encontrada no sapato do sacerdote.

Alguma vez, você parou para pensar o nome de certo personagem? Por que o autor resolveu escolher aquele nome dentre tantas possibilidades? Será que é coincidência ou foi uma proposta ousada do autor?

Agatha Christie, a brilhante Rainha do Crime, sempre traz algo para me surpreender. Dessa vez, fiquei me questionando duas coisas que podiam parecer incoerentes ou simples acasos: por que o nome de seu narrador em primeira pessoa era Mark Easterbrook? E por qual motivo a escritora resolveu colocá-lo como historiador do Império Mongol?

Ainda que pareça não ter nada a ver com o enredo e o crime, tinha algo me incomodando. “Mark Easter Brook”, separado, pode muito bem dar algo como a marca, a Páscoa e o riacho. O que esses elementos têm em comum com a trama? Tanto o título quanto o crime possuem relações com a Bíblia.

Assim, duas coisas me chamaram atenção: o riacho pode ter muito bem a ver com a água e a sua correnteza, algo que afasta demônios e também trata de dar vida; e, não menos importante, a Páscoa é sobre a ressurreição de Cristo. Assim, em um romance que o título fala sobre o cavalo da Morte, por que não ressurgir com a vida e resolver o mistério? Talvez seja essa a marca do personagem. Ainda mais interessante é que o personagem estuda o maior império conhecido, mas, até hoje, não é o estatuto religioso que sustenta muitas das diretrizes do Ocidente? Pode não ser um Império como o de Khan, mas ainda assim conecta diferentes indivíduos de múltiplas nacionalidades (além de ter durado tanto tempo!).

Dessa maneira, o nome do personagem prenuncia – como uma prolepse, ou seja, adiantamento narrativo – que esse romance trata da ressurreição de um crime, além de ser sobre algo religioso: um padre – aquele que abençoa e afasta demônios, como o riacho – é assassinado depois da última confissão de uma vítima. E não é que se encaixa perfeitamente? Eles estão tentando salvar pessoas em risco também, vale lembrar uma outra possível leitura. Daí, senti que pensar tanto num nome não foi uma perda de tempo, pelo contrário, só mostrou como a escritora é sensacional.

Cavalo Amarelo é de longe um dos romances da autora mais conectados ao seu tempo. Ainda que fale sobre a aparência das coisas e a realidade, não é de fato sobre isso, e sim sobre ciência e a religiosidade, a crença no sobrenatural e/ou a falta de explicações científicas, bem em voga na década de 30 até 60 da Inglaterra.

Trabalhando um tema típico de sua sociedade, através de uma narração intercalada entre primeira – de Mark – e terceira pessoas, a autora extrapola conceitos como o homem x Homem, em que há um ser pensante que não será esmagado pelo capitalismo progressivo, mas o usará em seu benefício; posiciona os valores vigentes da sociedade e levanta a hipótese de que o conhecimento acadêmico é bom, mas não é tudo. Também abusa de muitos símbolos religiosos e culturais, como, por exemplo, o próprio cavalo amarelo e a tríade das mulheres (o número três, as diferenças etapas da mulher e a própria acepção cultural de bruxa).

Aproveitando-se também das pulsões freudianas, Eros e Thanatos, a escritora traça paralelos com a psicanálise; elucida questões históricas e constrói um assassino perfeito, através de seus desejos e frustrações.

Embora não seja tão difícil descobrir quem é o assassino, a Rainha do Crime surpreende mais uma vez ao elaborar várias nuances críticas no decorrer do romance, reutilizando personagens queridos, como Ariadne Oliver.

A tradução de Bruna Beber é boa, sem muitos erros de digitação. A imagem da capa faz todo sentido, embora muitas pessoas tenham TOC com a diferença da cor (azul) para o nome do título (amarelo). No entanto, vale destacar que a coleção segue o padrão de cor por ano da publicação original, o que justifica a obra não ter a cor amarela.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. O Cavalo Amarelo. Tradução de Bruna Beber. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2020.