RESENHA #203: A DUALIDADE VITORIANA

AUTOR: Robert Louis Stevenson
SINOPSE: Além da curiosa história do advogado Gabriel John Utterson preocupado com o comportamento estranho do seu amigo Dr. Henry Jekyll, outros “experimentos” de Stevenson que flertam com o terror e o sobrenatural estão presentes neste volume. É o caso dos contos “Markheim”, “O Apanhador de Corpos”, “Olalla” e “Janet, a Entortada”), sem falar nos contos de mistério e aventura (“A Praia de Falesá”), e fantasia (“O Demônio da Garrafa”, “A Ilha das Vozes”). Nenhuma dessas narrativas, porém, pode ser resumida a um gênero e enquadrada em apenas uma categoria. Alguns deles estão entre os mais brilhantes exemplares de ficção de horror do século XIX.

Permeando o nosso imaginário, diversas figuras sombrias apareceram no decorrer da literatura. De Drácula a criatura de Victor Frankenstein, nós somos levados a conhecer a maldade humana, a qual habita cada um de nós. Conseguimos vislumbrar isso, principalmente, quando os personagens desses romances contracenam com esses seres extraordinários.

Cada uma dessas criaturas, consideradas malignas, possui em comum uma coisa: nenhuma delas tem voz narrativa. Ao destacar isso, antes mesmo da obra de Robert Louis Stevenson, quero mostrar que há pessoas na sociedade que, não importa quanto gritem – como a criatura de Victor que, inclusive, tem tempo de se defender no texto de Shelley –, elas são vistas como as erradas e ponto. Assim, através da literatura de horror, encontramos monstros, seres malvados que são só culpados por serem quem são. Historicamente falando, o sobrenatural – principalmente – entra como a aversão ao desconhecido e ao medo, os quais existem pela falta de explicações para as coisas. Dessa maneira, ao invés de os seres humanos tentarem entender o mundo, consideram-no maligno e ponto.

A mudança desse pensamento vai surgir a partir do período cientificista, em que se busca descobrir a verdade daquilo que não se tem conhecimento. Assim, as obras literárias de ficção científica e horror, como apresentadas por Stevenson, Shelley e Stoker, vão tentar mostrar que há dois lados nessa balança. Principalmente, a obra de Robert Louis Stevenson que compreende que a aversão social se deve, sobretudo, a diferença de camadas sociais.

Embora Stoker, com Drácula, e Shelley, com Frankenstein, tragam críticas acerca do apagamento social e da deslegitimação do outro (algo que também aparece em O Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux), é Stevenson, através de O Estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, que irá focalizar um ponto de vista político, social e econômico.

Sendo um boêmio e conhecedor da Era Vitoriana, Stevenson entendia que a sociedade era bipartida. De um lado, existiam os ricos, que eram bons, inteligentes e belos; do outro, os pobres, caracterizados pela sua malícia, feiura e burrice. Essa dicotomia, até mesmo geográfica, permeava o imaginário britânico pela influência filosófica greco-latina. De acordo com o pensamento clássico, o belo e o bom eram indissociáveis, por beber avidamente dessa fonte, a sociedade continuou a ter essa ideia, até porque ela privilegiava uma camada social específica.

De uma forma mais explícita e maliciosa do que em A Ilha do Tesouro, Stevenson utiliza um conteúdo narrativo crítico não só claro, mas mordaz. Desde a descrição do cenário até no decorrer dos acontecimentos, ele brinca com essa dualidade humana e mostra que, na verdade, o que é indissociável é o bom e o mau, e não o belo.

No decorrer da novela, também encontramos certa progressão da maldade apresentada pelos personagens, parte da construção ideológica de que os pecados se alimentam da alma, considerando a ideologia calvinista do autor. Para além disso, esse clássico atemporal conta com a progressão científica e discute a ética e o desejo do cientista.

Não menos importante, considerando o cenário e também o enredo, acompanhamos o advogado dos protagonistas da narrativa: Utterson. Essa é uma brincadeira brilhante do escritor, já que utter significa “falar, pronunciar” e son é “filho”. Assim, nós acompanhamos e o ouvimos a voz narrativa do “filho do discurso”, muito mais preocupado com seu cliente do que com a verdade. Brilhante, genial e deslumbrante são as palavras que posso destacar a respeito desse texto que, com pouco, diz muito.

A edição da editora Darkside, para além da novela famosa de Stevenson, também traz contos de Entretenimentos das Noites nas Ilhas, que, a partir do imaginário do escritor, retrata ideias múltiplas, mas, principalmente, voltadas à dualidade humana e ao quanto você se abdicaria pelo próximo. Não menos importante, também há Apanhador de corpos, tão terrível e assustador quanto real; Olalla; Janet, a entortada; e, o meu preferido, Markheim, em que um ladrão dialoga com o diabo na noite de Natal.

A tradução é de Paulo Raviere que, para além de traduzir, trouxe um excelente texto de apoio. Há diversas e belas ilustrações de Alcimar Frazão que, ao entender a estética de Stevenson, trouxe uma arte muito condizente. Também vale destacar a falta do título na capa da edição, destacando, na lateral, somente o nome do autor. Essa é uma proposta coerente da editora, já que damos um nome diferente – O Médico e o Monstro, e não O Estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde – a obra principal.        

REFERÊNCIA

STEVENSON, Robert Louis. O Médico e o Monstro e outros experimentos. Tradução de Paulo Raviere. 1ª ed. Rio de Janeiro: Darkside Books, 2019.

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