RESENHA #202: SOBRE O BELO MUNDO

AUTORA: Sally Rooney
SINOPSE: Alice conhece Felix pelo Tinder. Ela é romancista, ele trabalha num armazém nos subúrbios de uma pequena cidade costeira da Irlanda. No primeiro encontro, enquanto os dois tentam impressionar, a fagulha de algo mais aparece. Em Dublin, Eileen está tentando superar o término de seu último relacionamento enquanto precisa lidar com a falta da melhor amiga, que se mudou para o litoral. Ela acaba voltando a flertar com Simon, um homem mais velho que acompanha sua vida há tempos.

Alice, Felix, Eileen e Simon ainda são jovens, mas sentem cada vez mais a pressão do passar dos anos. Eles se desejam, se iludem, se amam e se separam. Eles se preocupam com sexo, com amizade, com os rumos do planeta e com o próprio futuro. Seriam eles as últimas testemunhas do ocaso? Eles vão conseguir encontrar uma forma de viver mais uma vez em um belo mundo? Com uma prosa única e brutal, Sally Rooney constrói mais um romance inigualável sobre o que significa amadurecer sem deixar a si mesmo para trás.

O que é belo? Você já se fez essa pergunta? Alguns autores clássicos, como Platão; outros, vitorianos, como Oscar Wilde; e poetas alemães, como Friedrich Schiller, questionaram-se sobre o que significa, o que representa a beleza. Sally Rooney, utilizando a singularidade de um enredo digno de Virginia Woolf, faz o mesmo.

Belo mundo, onde você está é uma referência direta a filosofia apresentada nos poemas de Schiller, que, ao considerar o que é a beleza, determina que ela está na liberdade. Sem formas, sem amarras, por puro desejo e vontade própria: a beleza nada mais é do que a liberdade, considerada, então, a falta de interferências daquilo que é externo ao objeto. E o que é a nossa sociedade senão interferências diretas e constantes da internet?

Assim, o questionamento do poeta do século XVIII é retomado em Rooney de maneira singular, pois vai redefinir a interferência do outro através de uma repartição entre a vida cotidiana – na história narrada – e sobre o significado do que é belo no mundo (e no quanto está se perdendo pouco a pouco), no conteúdo dos e-mails trocados entre as amigas.

Devo dizer, antes de mais nada, que essa é a minha segunda experiência com a escritora. E, particularmente, considero e ressalto que há um grande abismo entre o título Pessoas normais e Belo mundo, onde você está. Embora tratem do mesmo tema, como a vida cotidiana, os relacionamentos complicados que beiram a toxidade (porque o indivíduo em si está intoxicado com ele mesmo), as expectativas frustradas da vida adulta, Rooney conseguiu aprofundar o tema de maneira sensata e sensível, melhorando sua capacidade técnica e filosófica.

 O primeiro aspecto a ser ressaltado é a ambiguidade do título. Ao questionar o “Belo Mundo” sobre seu status de presença, essa presença pode ser tanto literal quanto metafórica. Assim, Rooney, ao se apropriar dessa referência, traça questionamentos que se alinham as ramificações duplas de seu texto: a narrativa e a filosófica.

Em relação a filosófica, Rooney adentra ao status metafórico e teórico. Teorizando sobre o mundo, através de e-mails trocados, ressalta a demora das respostas por justamente se afastar do imediatismo presente na vida dos millenials, não obstante, é através dessa troca que questiona sobre as ações humanas gerais e também sobre a história da humanidade, buscando a beleza que habita não só no mundo, mas no homem que habita o mundo.

Em relação a narrativa, a beleza se torna palpável, real, fugindo da construção metafórica e adentrando a literalidade do que é belo, desde o que é visto num encontro fracassado até mesmo na relação sexual entre dois personagens. Assim, o que é belo está na construção dos relacionamentos, seus defeitos e qualidades, pertencentes aos personagens e a tudo que constroem juntos. Ao mesmo tempo, desenvolve a psique dos seus protagonistas como indivíduos singulares que, ao se apoiarem, ao questionarem, ao inventarem, tornam visível o “belo mundo”, contrariando a beleza apontada por Schiller e construindo uma nova possibilidade para ela.

Não obstante, preciso destacar também que esse título é, sobretudo, geracional, pois retrata uma particularidade de toda uma geração com expectativas, com escolhas, com ideias que nunca se concretizam como imaginam. A imaginação é sobreposta pela realidade, deixando-nos com vários problemas psicológicos, como depressão e ansiedade. Para além disso, o título acrescenta temas polêmicos, como a religião e a política. Libertos de uma amarra passada, tomamos consciência da importância de dialogá-las uns com os outros. E, não menos importante, trata da importância da privacidade do escritor, do sufocamento do artista pela necessidade midiática de tentar expô-lo por inteiro, desconsiderando o quanto ele se transcreve em sua arte.

Belo mundo, onde você está foi lançado em brochura, contanto com uma diagramação confortável e uma capa que mostra como cada um de nós, como os personagens e a natureza, são parte do que há de belo no mundo e, por isso, o mundo é belo. A tradução de Débora Landsberg é agradável, contendo poucos erros de digitação e concordância, nada que atrapalhe.

REFERÊNCIA

ROONEY, Sally. Belo mundo, onde você está. Tradução de Débora Landsberg. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.