RESENHA #201: PERDAS E ROMANTISMO

AUTORA: Lucy Maud Montgomery
SINOPSE: Quinto romance da saga de Anne Shirley, este livro narra o início da vida de casados de Anne e Gilbert Blythe. Logo após o casamento no pomar de Green Gables, os dois se mudam para a “casa dos sonhos” – uma casinha que Gilbert encontrou em Four Winds Point, no litoral, onde ele deve assumir a clínica médica de seu tio.  A casa é velha e pequena, e eles vão apenas alugá-la. Mesmo assim, Anne tem convicção de que aquela será a casa dos seus sonhos, especialmente quando Gilbert conta sobre o terreno ao redor, com muitas árvores grandes e antigas e um riacho que atravessa a propriedade, além dos jardins que os proprietários anteriores cultivavam. Anne renuncia à viagem de lua de mel: para ela, a melhor lua de mel é mesmo estar com Gilbert em seu novo lar. O livro acompanha Anne dos 25 aos 27 anos em sua nova vida, na qual, como é de seu feitio, encontra pessoas interessantes, se envolve com várias delas, ajuda a resolver problemas e ganha novos amigos e admiradores.  Para Anne Shirley, a vida parece perfeita e continua cheia de possibilidades. Mas então uma tragédia acontece e, com ela, uma enorme dor de cabeça para o jovem casal, que precisa de toda a sua coragem e seu amor para superá-la.

A mudança causa certo estranhamento: quem fomos ontem não é quem somos hoje. As pessoas, os lugares, até mesmo o clima estão em constante mudança. Como Heráclito diz: “ninguém entra num rio duas vezes”, pois o rio corre, então, ele não é mais o mesmo; e nós – ou quem tiver entrado no rio – também já não somos os mesmos. A cada segundo que passamos vivendo, mudamos, modificando o nosso “eu” e também os que estão a nossa volta.

Anne Shirley, dessa vez, conhecida como senhora Blythe, é exatamente o tipo de pessoa que modifica os demais e, nesse processo, passa por mudanças intrínsecas. Assim, o primeiro ponto que quero destacar em A casa dos sonhos de Anne é que a maturidade apresentada pelos personagens é tão constante e palpável que torna toda a narrativa crível. Mais crível do que alguns dos volumes anteriores.

Dentro do espectro de obra clássica, A casa dos sonhos é um livro que situa o leitor no período histórico canadense narrado por Montgomery. Diferente dos seus anteriores, graças a participação social ativa de Anne e Gilbert como donos de seu próprio lar, esse título irá narrar aspectos políticos e econômicos do Canadá, mostrando o escambo na região litorânea, a cumplicidade de vizinhos, bem como mostrará os espectros políticos presentes naquele tempo, divididos entre liberais e conservadores. Não menos importante, também pontua rixas religiosas entre presbiterianos e metodistas.

Como o título literalmente apresenta, essa é uma obra sobre o espaço físico e metafórico dos personagens centrais, Gilbert e Anne, e a importância do lugar que escolheram para o início de sua jornada como casal. Por vezes, o texto será descritivo propositalmente, trazendo a ideia da importância do espaço na vida dos moradores de Four Winds e dos protagonistas, bem como do ambiente e do clima. Assim, como as pessoas mudam, o espaço também. Então, através de um estilo romântico, Montgomery trará personagens femininas marcantes e histórias de superação.

Também é necessário destacar os personagens secundários, todos eles com certa importância narrativa ou de construção para Anne e Gilbert. Há pontadas de feminismo radical – para o período, claro – na perspectiva de Cornélia; a importância da imaginação e da viagem através de Jim; e também, por conta de Leslie, as emoções humanas e as adversidades encontradas na vida. Cada um deles transmite uma mensagem e, ao mesmo tempo, ensina algo. Uma das lições mais valiosas é que a amizade é um dos elos mais importantes.   

Contudo, nem tudo são flores no decorrer da leitura. Alguns pulos temporais são incômodos, aspecto presente nos outros volumes da série, demonstrando que faz parte do estilo de Montgomery. Para além disso, também há o afastamento de Anne da docência e de outras tarefas que fujam do seio do lar. Anne, como personagem de seu tempo, torna-se uma dona de casa que escreve, vez ou outra, contos infantis. Diferentemente de antes, que ela tinha uma profissão e salário próprios. Entretanto, vale destacar que faz sentido considerando o contexto histórico.

Com referências literárias e bíblicas constantes, A casa dos sonhos possui um brilhantismo especial. Não menos importante, trata sobre diversos problemas humanos, como, por exemplo, abusos sofridos por mulheres, relações matrimoniais e luto. É um livro que abarca múltiplos sofrimentos e alegrias.

A edição apresentada pela editora Autêntica é uma excelente pedida para quem quer ter uma experiência completa. A tradução de Márcia Soares Guimarães continua a respeitar o estilo prosaico de Montgomery, bem como há ilustrações ao final de quase todos os capítulos e notas de rodapé necessárias. A capa segue a padronagem dos títulos anteriores, com alto relevo em alguns elementos da capa.  

REFERÊNCIA

MONTGOMERY, Lucy Maud. A casa dos sonhos de Anne. Tradução de Márcia Soares Guimarães. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.