RESENHA #200: MÚSICA E CASAMENTO

AUTOR: Gaston Leroux
SINOPSE: Criatura mutilada e de passado enigmático, arquiteto de trotes e tragédias, o Fantasma da Ópera habita os labirínticos porões da construção e usa sua voz, suas lições e seu poder para seduzir a cantora Christine Daaé. Mas, quando ela rompe o pacto implícito entre eles, é arrastada para o subterrâneo – numa espiral de mistério, horror e música.

Por muito tempo, suspeitei que romances não precisavam ter personagens cativantes para me entreter. Na verdade, para mim, isso fazia pouca diferença, eu gostava de observar as nuances do enredo e das críticas.

No entanto, essa perspectiva acabou caindo por terra quando conheci a versão original de O Fantasma da Ópera, título escrito por Gaston Leroux. Essa leitura, diferente de tudo que eu previa por conta das adaptações, fez com que eu me sentisse pagando com a língua, porque – no meu ponto de vista – foi arrastada e insuportável. Eu não conseguia tragar nenhum dos três personagens principais, pivôs do enredo que trata sobre relações abusivas e toxidade.

Claro que consideramos assim hoje, o que não é uma verdade no período histórico de Leroux. É um título próprio do romance gótico, com personagens quebrados incapazes de lidar uns com os outros. Dessa forma, seguindo o estilo de Os morros dos ventos uivantes, senti que Heathcliff parecia um anjo em comparação a qualquer um deles, fosse Christine, Raoul ou Eric.

No entanto, por mais que meu desgosto aparente fosse bem claro: esse romance é brilhante. Ainda que tenha sido uma leitura maçante, O Fantasma da Ópera trabalha as aparências da sociedade francesa, criticando as suas relações sociais e fazendo uma crítica muito bem elaborada a respeito da orientalização, similar à encontrada em Drácula. A figura fantástica, o Fantasma, não tem voz na narrativa, assim, jamais saberemos o seu ponto de vista, porque estava na escuridão, preso num labirinto que é a iluminada Ópera de Paris.

É imprescindível ressaltar o jogo que Gaston Leroux faz com o cenário e a própria capital francesa, numa espécie de brincadeira de duplos, muito utilizada por Edgar Allan Poe. Dividida entre luz e trevas, entre Raoul e Eric, quase numa espécie de maniqueísmo desestruturado, o autor elabora a nobreza versus a plebe, o dinheiro versus a arte, a técnica versus a emoção, bem como o cidadão versus o estrangeiro.

Repleto de simbolismos, esse título, com diversas características do romance gótico, ganha uma camada extra ao ter dentro de si aspectos do romance policial. Construído como uma investigação de um jornalista, Gaston Leroux assina a obra como se fosse, de fato, uma notícia romanceada, utilizando muitos dos recursos que apreendeu durante o seu ofício e das leituras que, provavelmente, fez de Poe e Conan Doyle.

O autor também trabalha o debate filosófico entre Rosseau e Hobbes sobre a natureza humana: o homem nasce bom e a sociedade o corrompe ou o homem já nasce egoísta?

A partir disso, desempenha em seus personagens, representantes do microcosmo, até metade do enredo, uma caracterização brilhante: Christine, a personificação da arte, julgando pelas aparências; Raoul, a infantilidade e a soberba da nobreza; e Eric, a podridão prejulgada do estrangeiro e do renegado. Eles, dessa maneira, representam o macrocosmo, que é a França, com uma construção desigual e preconceituosa para com o outro.

Para além dessa perspectiva, também podemos fazer uma leitura a respeito do feminino, em que Christine está dividida entre seu amor pela música (Eric), nociva por conta da toxidade do espaço da Ópera e seus integrantes, e o matrimônio (Raoul), controlador ao ponto de lhe tirar a carreira, já que o matrimônio e a carreira, na época, eram impossíveis de conciliar.

No entanto, mesmo assim, preciso ressaltar que o título tem uma estrutura totalmente quebrada (ruim mesmo), caracterizada através da inserção de um personagem, como se os planos de Leroux não pudessem se concretizar da maneira que se encaminhavam anteriormente. Como foi publicado em folhetim, é bem possível que algo assim tenha ocorrido.

No mais, a obra tem diversas referências a óperas do período, bem como ensinam o funcionamento da própria instalação. Também traz consigo diversas curiosidades, como o lago subterrâneo etc. A tradução de André Telles continua excelente e as notas ajudam o leitor a se posicionar melhor, porém, devo ressaltar que há diversos erros de digitação e revisão. Mas, como sempre, ainda é a minha edição favorita do título em português, pois não se mantém na literalidade do texto.

REFERÊNCIA

LEROUX, Gaston. O Fantasma da Ópera. Apresentação de Rodrigo Casarin. Tradução e notas de André Telles. 1ª ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2019.