RESENHA #198: AOS SÁBIOS DA CRÔNICA

ORGANIZADOR: Augusto Massi
SINOPSE: Além de reunir seis mestres da crônica, do lírico Rubem Braga ao rebelde José Carlos Oliveira, projeta um olhar inteiramente novo sobre a cultura brasileira. As noventa crônicas que compõem o volume formam um riquíssimo painel dos anos 1930 até a virada do século XXI: é o retrato de toda uma época.

Todo mundo tem algum hábito na hora de ler. Pode ser que fique brincando com o cabelo, deitado com as pernas para cima; o leitor sempre faz algum tipo de coisa muito particular e que torna aquele momento único. Como um dos cronistas cita, é um momento bem heraclitiano: só acontece uma vez porque a gente não tem como atravessar o rio duas vezes. É assim para mim, pelo menos.

Enquanto eu lia – mais tentava ler do que de fato li durante todos esses dias –, eu levava o livro de cima para baixo, até em enterro o coitado foi parar! Bom, o que fez com que eu não lesse de fato… mas o importante era que ele estava ali e, a qualquer momento, eu podia sacá-lo da bolsa para ter um momento com algum cronista famoso, fosse Rubem Braga ou Paulo Mendes Campos.

Em verdade, quando eu lia – agora em casa, de verdade lendo –, notei que estava tão ansiosa para as crônicas do Sabino que fiquei surpresa por ter me apaixonado pelas do Stanislaw Ponte Preta. Não me lembro de ter lido algo dele antes, não sou lá muito chegada em crônica – adoro mesmo uma fuga da realidade –, mas foi ele o culpado pelas risadas mais altas. Um vexame, dependendo do contexto.

E aí a gente pode parar para pensar numa coisa bem interessante desses cronistas e do que de fato é a crônica. Como estudante chata de grego antigo que eu sou, só conseguia pensar em como a cronologia fazia parte desse título. Isso, digo, lembrando do pai de Zeus, tão babaca quanto ele, chamado Cronos: senhor do tempo, aquele que mais assusta os mortais e a esposa, os filhos, acho que todo mundo… nem os deuses devem segurar bem essa bomba. Mas, voltando para o antigo maioral da mitologia grega, ele representa todo o tempo que corre, o tempo que nos escapa e, ao mesmo tempo, o tempo que a gente vive. Melhor não tentar repetir essa frase rápido e em voz alta.

O que esse livro tem de interessante e que ficou me remoendo o tempo todo é que, num saudosismo parcialmente nostálgico, eu estava vivendo a vida de um bando de cara que nunca conheci, conhecendo a história do meu país através do ponto de vista deles. E morri de inveja das viagens para Paris e das amizades, como a de Caymmi! Tive quase uma crise de riso quando o Garrincha disse que não ligava para futebol, fiquei tentada a criar uma máquina do tempo só para ver isso! E, enquanto contavam um bando de fofoca em formato de crônica, eles estavam criticando a política do tempo deles, tão ruim quanto a nossa. O tempo passa, mas acho que a política não muda mesmo… se eu fizer um paralelo, com certeza, vou ficar tão deprimida quanto estava antes!

Assim, na noite de ontem, finalmente conclui esse livro com um suspiro pesado. Por mais que tenha piada e diversão, é um livro que trata sobre a nossa cultura, menos sobre o erudito – ainda que cite Heráclito e Edgar Allan Poe – e mais sobre o futebol, o samba, o que é o bicho brasileiro, aquele mesmo que a gente sempre brinca – com muita verdade no fundo – de que devia ser estudado pela NASA. É um livro sobre o Brasil, não é? Sobre o ser brasileiro, aqui ou nos Estados Unidos ou lá na Europa, não importa muito, a gente continua com nosso jeitinho. Também é um livro sobre o processo da crônica no Brasil, com um texto e organização do Massi que é um primor! Aliás, é não só sobre a história da crônica, mas fazer crônica e também escrever. É sobre ser poeta e jornalista ao mesmo tempo e informar, e pensar, e fazer de tudo um pouquinho!

Tudo isso tem no livro, mas o que eu achei mais incrível foi finalmente saber como é a cara do José Carlos Oliveira, que muito ouvi falar, mas ir pesquisar no Google que é bom, não fui. O livro me deu de bandeja com o ensaio fotográfico maravilhoso do Paulo Garcez.

Agora, além de saber dos sabiás que gorjeiam por todo lá, sei também dos sábios cronistas que encantaram os jornais do Brasil por tanto tempo. E até hoje.

REFERÊNCIA

BRAGA, Rubem et al. Os Sabiás da crônica. Organização de Augusto Massi. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.