RESENHA #197: ESTUDANTE OU CRIMINOSO?

AUTOR: Fiódor Dostoiévski
SINOPSE: Contando nele a soturna história de um assassino em busca de redenção e ressurreição espiritual, Dostoiévski chegou a explorar, como nenhum outro escritor de sua época, as mais diversas facetas da psicologia humana sujeita a abalos e distorções e, desse modo, criou uma obra de imenso valor artístico, merecidamente cultuada em todas as partes do mundo.

O que você faria para provar uma teoria? Você ultrapassaria medidas éticas, como, por exemplo, assassinar alguém? Acharia que assassinar alguém valeria o risco para descobrir o que quer que fosse? Assim, durante toda a história da ciência, uma pergunta surge: o quanto vale uma descoberta e até que ponto cientistas estão dispostos a ir por ela?

No decorrer da nossa história, diversos autores passaram a se preocupar com o que é ético, como, por exemplo, Mary Shelley e H. G. Wells. Não tão distante dos livros de ficção científica, Fiódor Dostoiévski começa a se perguntar o mesmo, ainda que em um cenário pouco europeu. Na verdade, um dos pontos mais importantes da obra Crime e Castigo é pontuar que uma boa parte dos males que invadem a Rússia é responsabilidade da Europa, da sua ciência, da sua forma de ver e desbravar o mundo.

A europeização, com a presença ideológica e ambígua de Napoleão Bonaparte, é discutida através do estudante Raskólnikov, um jovem brilhante e com uma teoria – na cabeça dele, claro – boa o suficiente para assassinar uma agiota. Através desse pequeno desenlace, Dostoiévski nos traça diferentes paralelos, desde econômicos, em que há um confronto entre a ciência e a burguesia; até mesmo sociais, das classes que se privilegiam enquanto outras decaem cada vez mais. Inclusive, premedita os aspectos revolucionários russos e o quanto tal revolução poderia vir a prejudicar a população.

Para esse confronto entre Europa e Rússia, o autor também traz questionamentos acerca do desenvolvimento do indivíduo, de maneira psicológica sem igual para seu período histórico. Dessa forma, ao questionar se existem pessoas extraordinárias e pessoas ordinárias, o autor pontuou as diferenças entre as sociedades, as classes sociais e a forma como indivíduos se comportam e se sentem diante da sociedade. O que faz alguém ser melhor do que outra pessoa? Seu dinheiro? Seu conhecimento? Ou nenhuma dessas coisas?

Assim, Dostoiévski traz uma marca registrada através da proposta religiosa, em que existe um embate que privilegia a ortodoxia e a experiência da vivência russa. Não menos importante, também pontua, de maneira brilhante, a presença e a importância do feminino dentro das camadas sociais, através de Dúnia e Sônia, rememorando quem é a mãe Rússia – similar a proposta que, anos depois, fará Boris Pasternak ganhar o Prêmio Nobel.

Contudo, tudo isso é apresentado através de uma proposta realista e própria do romance policial, em que a ênfase se dá, sobretudo, a psiquê dentro da urbis, ou seja, da cidade grande. Assim, como personagem de um espaço interiorano, Raskólnikov, em busca por mais, afasta-se da sua origem russa.

Somado a tudo isso, vale destacar que o romance possui muitos aspectos autobiográficos e, ao se associar ao personagem, Dostoiévski acaba criando situações que, ao meu ver, soam inverossímeis e fogem à grandeza do título. No entanto, no geral, é um romance sensacional.

A edição da editora Martin Claret possui capa dura e traz a tradução fluida de Oleg Almeida, que, nas cenas de maior ironia, manteve os diminutivos constantes. Com uma boa diagramação e um texto de apoio equilibrado, a obra tem como capa uma arte capaz de mostrar não só o tormento do protagonista, mas de todos que o cercam.

REFERÊNCIA

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Crime e Castigo. Tradução de Oleg Almeida. 1ª ed. São Paulo: Martin Claret, 2013.