RESENHA #196: IGNORADOS NO CARIBE

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Miss Marple está entediada em suas férias à beira-mar. O sol até ajuda com seu reumatismo, mas nada divertido acontece. Até que finalmente seu interesse é despertado pela história de um assassinato contada pelo Major Palgrave, mas, justo quando ele ia lhe mostrar uma foto do homicida, o major se interrompe. No dia seguinte, é encontrado morto em seu quarto, sem nunca ter terminado a história. Sua morte, aparentemente, é apenas a primeira dos muitos mistérios que o Caribe apresenta…

Nos romances estrelados por Miss Marple, encontramos a personagem, muitas das vezes, aparecendo na metade do livro ou quase no final. Essa característica, importante e brilhantemente trabalhada por Agatha, demonstra como ela, por mais inteligente e incrível que seja, é delegada ao segundo plano por ser idosa e mulher.

Contudo, em Um mistério no Caribe, a incrível detetive amadora está desde o início da história conosco. Ela, inclusive, é o pivô para a investigação acontecer. Esse fato pode parecer corriqueiro, mas, ao meu ver, isso só é possível porque não é um romance estrelado na Inglaterra, mas no Caribe. Um lugar em que as regras sociais britânicas não são válidas, a começar pelos valores religiosos.

Diversas vezes, alguns personagens estranham a relação construída entre os moradores da ilha que, ao invés de se casarem, resolvem simplesmente morar na mesma casa. Ainda que haja batismos, não há matrimônios. Esse teor denota como os colonizadores continuam tentando catequisar a população local, fazendo com que sigam os seus dogmas e crenças do que é correto ou não.

Para além disso, Christie pontua a maneira como doenças psicológicas eram tratadas na época. Até mesmo aspectos psicológicos perpassam, fortemente, os personagens nesse romance, seja a figura de Mr. Rafiel ou até o estereótipo do assassino. Como ocorre em É fácil matar, temos um assassino em série como o criminoso da vez.

Graças a essa característica, Marple faz um comentário super pertinente a respeito da felicidade demonstrada pelo assassino: alguém pleno, alguém que diz se importar. Assim, a autora acaba traçando parte do arquétipo desse tipo de personagem e dá uma aula quanto ao teor psicológico e psicanalítico.

Outro ponto muito bem debatido pela escritora – e comum em suas obras – é o posicionamento da mulher, principalmente, daquelas que têm idade avançada. Ao colocar Miss Marple contracenando com Mr Rafiel, um idoso cadeirante, a Rainha do Crime pontua um paralelo entre os dois. Assim, demonstra, independente das circunstâncias, como é mais fácil um homem ser ouvido do que uma mulher.

Ao mesmo tempo que destaca como o feminino é ignorado, Christie não esquece dos múltiplos idosos da narrativa. Não só Miss Marple é ignorada, como também é aquela que ignora o Major. Dessa maneira, traça um paralelo entre os dois e como a sociedade pode ser nociva a indivíduos de idade mais avançada. Para além disso, também pontua o desejo de se manter jovem, não só através da personagem de Lucky, bem como a partir da forma em que viagens de férias são feitas. Afinal, quem quer ser ignorado por ser idoso?

Por fim, e não menos importante, a personagem constantemente trata sobre o que devemos ou não acreditar, porque alguém disse (ainda mais em um lugar que ninguém se conhece). A força de um boato ou uma fofoca é tamanha que pode atrapalhar a investigação do crime, até mesmo encobri-lo. Assim, a escritora não só retrata diferentes indivíduos, mas diferentes intenções sobre quem você é e quem você planeja ser.

A edição segue o padrão clean das novas edições da Harper Collins Brasil, com a tradução de Samir Machado de Machado e capa de Túlio Cerquize. A capa mescla uma cor divertida, cuja lembra o mar caribenho.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Um Mistério no Caribe. Tradução de Samir Machado de Machado. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2021.