RESENHA #194: EMPATIA AMERICANA

AUTORA: Harper Lee
SINOPSE: Ambientada no Sul dos Estados Unidos da década de 1930, região envenenada pela violência do preconceito racial, vemos um mundo de grande beleza e ferozes desigualdades através dos olhos de uma menina de inteligência viva e questionadora, enquanto seu pai, um advogado local, arrisca tudo para defender um homem negro injustamente acusado de cometer um terrível crime.

Entre muitos romances, em 2006, alguns bibliotecários se reuniram para decidir quais obras deveriam ser lidas obrigatoriamente pelo público antes de morrer, e eles escolheram, dentre elas, O Sol é para Todos. Claro que, jamais, devemos obrigar alguém a alguma coisa, mas acho que, se você quer saber sobre empatia, em um limite jamais antes vislumbrado, considero que dê uma chance para O Sol é para todos.

Há, obviamente, muitos comentários elogiosos a serem tecidos sobre essa obra, mas, o primeiro que quero partilhar com vocês é que chorei feito um bebê. E nunca fui tão emotiva, parcial e pessoal em uma resenha antes. Na verdade, sempre tento me distanciar o máximo possível para ver os pontos positivos e negativos de um título, assim, mostrando ao público o que aquele texto pode proporcionar. Bem, não sei se eu não quis encontrar erros nessa releitura, ou se de fato não tem, mas não tenho nenhum comentário negativo a tecer sobre esse título.

No máximo, posso recriminar a tradução do título. Não que não seja poético, mas é incapaz de trazer a complexidade atribuída originalmente. O sol é para todos tem como título original To kill a Monkingbird. No entanto, quando dizemos que o “sol é para todos”, queremos dizer sobre sermos iguais aos outros. Só que, num ponto de vista social, ainda mais o abordado por Lee, isso é impossível. Não somos iguais, porque a sociedade não permite. Assim, o que o título original traz para a gente é: toda nossa inocência é morta em algum momento, porque a igualdade – o sol é para todos – não vai acontecer tão cedo. Durante o enredo, temos muitos personagens que encarnam essa posição de pássaro (para quem não sabe, Monkingbird é um pássaro que não faz mal a ninguém, por isso, nunca atirem em um).

Para além dessa crítica, bem como para além do Prêmio Pulitzer que Harper Lee ganhou com esse enredo quase que autobiográfico, a autora traça o cenário americano interiorano perfeito, com seu preconceito social no mais alto nível. Ainda que seja conhecido sobre o preconceito racial, estrelado por um julgamento sem pé nem cabeça; o título fala sobre questões familiares, machismo estrutural, economia desestabilizada e seus percalços, problemas psicossociais, bem como também enfatiza a empatia, ou melhor, a falta dela.

Na verdade, o título explora tantas coisas que poucas páginas não são capazes de falar absolutamente de tudo. É um livro que coloca em cheque o que Freud chama de egocentrismo infantil através da perspectiva inocente de Scout do mundo. A narração, além de ser de uma criança, também vem de um lugar de privilégio – mas existe obra literária canônica da elite branca que não venha? Assim, a escritora é capaz de ser tão verossímil que é impossível que lágrimas não saltem aos olhos.

No entanto, para diferenciar dos tópicos mais comumente comentados sobre o título, devo enfatizar o aspecto econômico. Harper Lee trabalha não só como a sociedade se comporta com o outro, mas a sociedade desesperada após a crise de 1929. Para quem não sabe, os EUA teve problemas financeiros sérios, conhecidos como a Grande Depressão, resolvidos somente na Segunda Guerra Mundial. No período em que a narrativa se passa, encontramos uma sociedade que vivia a base de escambo e, como o próprio pai de Scout e advogado, Atticus Finch, comenta “estamos pobres sim”. Esse teor mostra como funcionava a dinâmica econômica, a diferença de classes e das subclasses, além disso, também denota que não importa quão abaixo na classe social branca você está, você sempre pode desrespeitar uma pessoa íntegra se ela for negra.

A editora José Olympio tem como tradutora Beatriz Horta, que fez um bom trabalho. No entanto, a edição em si precisava de, pelo menos, um texto introdutório, como muitos clássicos possuem. Acredito que a Harper Lee merecesse um texto que dialogasse Direto, Economia e Sociedade.

REFERÊNCIA

LEE, Harper. O Sol é para todos. Tradução de Beatriz Horta. 21ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2017.