RESENHA #193: CONVITE À MEMÓRIA

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Chipping Cleghorn é uma cidade pequena na qual todos se conhecem. Até que, um dia, um anúncio no jornal convida todos para um homicídio que acontecerá na casa de Letitia Blacklock. Levados pela curiosidade, os moradores da cidadezinha decidem comparecer no horário marcado. O que parecia ser uma brincadeira inocente rapidamente se transforma em uma tragédia quando as luzes se apagam, tiros são disparados e uma pessoa é assassinada. Quem poderia ter orquestrado esse crime?

Durante a sua experiência como escritora, Agatha Christie escreveu inúmeros romances. As suas obras, as quais surpreendem muitos até hoje, foram louvadas ao ponto de Hercule Poirot virar um personagem marcante para a literatura policial e mundial. No entanto, isto não quer dizer que a Rainha seguia o que os modelos e as regras vigentes em sua época diziam que deveria ser feito.

Na verdade, como em outros títulos, Convite para um homicídio é um romance que foge das regras impostas, por exemplo, por Knox. Assim, Christie quebra o paradigma do que deveria ser feito ou não ao criar sua investigação. Essa fuga também foi o que tornou a Rainha do Crime a escritora que conhecemos hoje.

Entretanto, não é só do mistério que seus livros são feitos. Pelo contrário, o que mais me chama atenção na autora são as suas críticas aos britânicos e à sociedade de seu período histórico. Agatha comenta, mais de uma vez, o preconceito contra idosos e mulheres, não menos importante, destaca o preconceito contra estrangeiros.

Aportando-se em um plano de fundo após Segunda Guerra Mundial, a escritora traça perfis de indivíduos bem quistos pela sociedade, ainda que fossem mesquinhos, preconceituosos e até criminosos de fato. Além disso, também pontua como cidades interioranas se baseiam na vida alheia, caracterizando esses indivíduos como fofoqueiros. Não é sobre se preocupar com o próximo, mas saber o que ocorre em sua vida.

Sendo um romance de Miss Marple, não é estranho que tais temas apareçam, já que ela é uma mulher idosa que, por vezes, passa como mera fofoqueira. Contudo, é uma sublime mulher que percebe os indivíduos por quem são e não se deixa enganar pelo que eles aparentam. Assim, questões psicológicas saltam aos olhos e são parte do tema destaque do título.

Ainda há mais três temas importantes: miséria, memória e esquecimento. Uma das falas mais marcantes da obra trata a respeito de como os indivíduos daquele lugar não sabem o que é estar no fundo do poço e o quanto isso é assustador; ademais, também toca no medo que a velhice traz em relação ao que deve viver para sempre na memória e aquilo que foi esquecido no passado. Os últimos dois temas são entrelaçados de maneira delicada e sublime, fazendo-nos questionar sobre como é importante ter alguém que se importe em lembrar de você, mesmo quando você já não estiver mais por perto.

Ainda que seja um título previsível, Convite para um homicídio pode ser apresentado como uma obra que traz reflexões sobre quem você é e sobre quem você queria ser. Também mostra os limites da ganância humana e o quanto, no final das contas, não vale tanto a pena assim.

A tradução do título é de Samir Machado de Machado com a capa produzida por Túlio Cerquize. Embora em alguns títulos a capa não me agrade tanto, nesse, acredito eu, a escolha do capista foi extremamente acertada, porque o jogo da memória e do esquecimento só surge pelo tempo que está acabando.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Convite para um homicídio. Tradução de Samir Machado de Machado. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2021.