RESENHA #192: A MENINA PERFEITA

AUTORA: Johanna Spyri
SINOPSE: Uma menina órfã vai viver com seu avô turrão no topo de uma montanha dos Alpes suíços, lá, ela encontrará e fará alguns amigos, como Pedro e as cabras. Passará por diferentes aventuras, tanto na Suíça quanto na Alemanha.

Entre todos os tipos de públicos, acredito que o público infantil e infanto-juvenil sejam os mais difíceis. Não porque seja mais complicado criar enredos que os entretenham, mas sim porque passar mensagens para eles de forma clara é bem mais difícil.

Dessa maneira, alguns autores seguem padrões e fórmulas na hora de criar narrativas para engajar as crianças a apreender o mundo. Tal como Heidi, personagem centrada na Suíça, temos narrativas como Jardim Secreto, de Frances Burnett, inglesa, e também Anne de Green Gables, história canadense de Lucy Maud Montgomery. Assim, uma criança órfã – ou seja, sem o aparato dos pais – precisa encontrar seu lugar no mundo.

Todas essas crianças possuem em comum, para além da orfandade, o desejo de descobrir, explorar e conhecer a realidade em que vivem. Algumas são melhores que outras desde o início da narrativa, esse é o caso excepcional de Heidi.

Embora seja uma trama muito interessante, acredito que a narrativa elaborada por Spyri acaba pecando em relação a outras porque cria a personagem perfeita. Diferente de Anne, falante e que comete muitos erros; ou até mesmo Mary, simplesmente intragável no início, Heide não comete erros, só se vê enganada pelas circunstâncias, no máximo. Dessa maneira, a trama suíça acaba trazendo certa impalpabilidade, o que muito provavelmente não atrai tantas crianças como as outras personagens.

No entanto, para contrabalançar, não só Heidi como Clara, encontramos Pedro. Pedro das Cabras é um menino que não gosta de ler, nem de fazer as coisas que deveria, sendo bem ciumento e guloso diversas vezes. Assim, o contraste da narrativa acaba sendo nítido entre os personagens, porque é através dele que as crianças possuem o aprendizado de como não devem ser. Pedro aprende, mas baseado em ameaças (algo bem complicado, embora seja parte do período histórico). Diferente de Heidi, sustentada pelo avô, é Pedro quem provê as necessidades da mãe e da avó com seu trabalho. Assim, por mais que tenha atitudes consideradas ruins, ele ainda é um bom menino.

Outro paralelo construído na narrativa, entre personagens, é a tia Dete e o avô. Tia Dete, tendo toda uma carreira pela frente, é vista de maneira negativa porque deixa Heidi com o parente mais próximo, avô. Sendo julgada por todos, é ela quem tenta dar o melhor futuro para a sobrinha, mesmo que não seja algo que interesse a menina. A obra fala que todas as coisas acontecem por um motivo e só temos aquilo que queremos no momento certo. Assim, através de uma crítica religiosa, a história em certa parte elogia, em certa parte crítica a pessoa que une Heidi e Clara.

Além da religiosidade bem forte do período de Spyri, a autora elabora temas similares ao de Burnett, como a importância da natureza para o crescimento saudável de uma criança e como o estado psíquico afeta a saúde física do indivíduo. Dessa maneira, traz como temática a diferença de padrões de vida entre o campo e a cidade, privilegiando o primeiro; bem como retrata que, adultos ou crianças, suas mentes podem subjugar seus corpos e cuidado e uma boa alimentação podem operar milagres.

Não consigo julgar a tradução de Karina Jannini, mas a revisão está boa, com poucos erros no decorrer da narrativa. A capa segue o padrão apresentado por Anne de Green Gables e Jardim Secreto. A história conta com as lindas ilustrações de Jesse Willcox Smith, embora estejam em preto e branco na edição.

REFERÊNCIA

SPYRI, Johanna. Heidi, a menina dos Alpes. Tradução de Karina Jannini. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.