RESENHA #191: O GRANDE DEFUNTO AUTOR

AUTOR: Machado de Assis
SINOPSE: Na eternidade, o morto Brás Cubas narra suas memórias fora do tempo. A construção da narrativa é bastante peculiar, por interromper frequentemente o relato com pensamentos e comentários, além de diálogos com o leitor.

Pode parecer que não faz diferença, mas autor defunto e defunto autor possuem uma diferença notável. Ora o defunto é adjetivo, ora substantivo. O substantivo deve, no entanto, ser o primordial, porque ele já não se importa com mais nenhum traquejo social por estar morto. Logo, autor é adjetivo e não substantivo. É o que ele se tornou só por ser defunto.

O livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, para muitos, representa um novo Machado de Assis – um homem que perdeu a fé na humanidade. Talvez seja por isso que cria a teoria filosófica, através de Quincas Borba, outro personagem importante e homônimo a um dos seus romances, Humanitismo. O que é inato do homem, o que o homem apresenta e lega ao próximo.

No fundo, nada. Esse é o aspecto mais interessante da obra de Machado de Assis, porque, no decorrer das páginas, somos apresentados a um homem que nunca trabalhou, nunca teve filhos, nem se casou e nem fez nada propriamente útil, vivendo da futilidade e dos prazeres. Um personagem não só defunto autor, mas rico mimado também.

Dessa maneira, através de um teor fantástico e irônico (e ironicamente fantástico), Machado explora diferentes tipos de diálogos, construções e versa capítulos inteiros sem dizer uma palavra, porque, às vezes, o silêncio diz mais do que todo um monólogo. Pode parecer louco, mas não é. Esse teor é metalinguístico, já que o escritor profere sobre as formas do discurso enquanto discursa.

Para além disso, o autor faz a suspensão do tempo. Não existe uma linearidade narrativa porque Brás Cubas, defunto, não envelhece. Ele já é um homem do Outro Lado. Também vale acrescentar que esse seu lado morto ressalta a pouca importância que agora dá aos trâmites sociais. Sendo assim, ele critica a alta sociedade, a elite, de seu período, mostrando o quanto ela traz para o mundo com sua soberba: nada.

Ao martelar isso, Machado de Assis compõe uma proposta interessante. Ele mostrar como a Europa ainda influencia o Brasil, tratando de fazer uma análise sociológica a respeito das relações construídas no microespaço de Brás Cubas para o macroespaço do Rio de Janeiro naquele período. Em diversas passagens, comenta sobre a exploração de escravos e confronta a humanidade – violenta – com diferentes animais, como cães e galos.

Não menos importante e um aspecto a ser comentado é que há uma diferença entre ele vivo e morto. Ele, quando vivo, seguindo o que a sociedade esperava (ou, ao menos, fingindo seguir), vê-se dividido entre três mulheres. Marcella, a prostituta, trazendo a guerra e a distância do lar; Eusébia, a coxa, a piedosa e a que sabe o papel social que cumpre por sua deficiência; e Virgília, associada ao poeta da Eneida frequentemente, é aquela que verga aos prazeres tanto quanto o próprio narrador (porque vive de amor como o poeta vive de poesia). Essa tríade mostra que, dentre suas relações frutíferas, a única possível ao matrimônio era Eulália – aquela que sendo boa, perece antes do enlace conjugal. Assim, mais uma vez, Brás Cubas mostra que não é nada. Que não deixou nada. Não fez nada importante. Então, o que importa conhecermos um homem que prefere o emplasto, mas que não foi capaz de fazer algo pelo mundo?

Machado de Assis, brilhantemente, mostra que a elite nada deixa, mas sim os outros, os trabalhadores, principalmente, os escravos. São esses quem deviam deixar suas memórias registradas, mas que não tiveram acesso às possibilidades daquela elite que nada fazia.

A edição apresentada pela editora Autêntica conta com a mais bela capa de Memórias Póstumas, trazendo consigo notas explicativas em algumas passagens – embora nem tantas – e adaptações do texto original para facilitar a leitura. Além disso, a apresentação fica por conta de Luiz Ruffato.

REFERÊNCIA

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. 1ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.