RESENHA #190: POR QUE UM PAPAGAIO?

AUTOR: Robert Louis Stevenson
SINOPSE: Com a morte do pirata Billy Bones na Almirante Benbow, a hospedaria de seus pais, Jim Hawkins, um menino de 12 anos, abriu o baú do velho lobo do mar e descobriu, além de moedas de várias nacionalidades, o mapa de uma ilha onde haveria um tesouro enterrado pelo terrível Capitão Flint.  Jim mostrou o mapa para o Dr. Livesey e Lorde Trelawney, homens influentes da região. Logo partiram, no navio Hispaniola, para uma expedição à ilha. A tripulação tem, como cozinheiro, Long John Silver, veterano no mar que havia trabalhado no barco de Flint. Silver os ajuda a escolher o restante da tripulação, homens experientes, entre os quais alguns aliados de Long John – que, como tantos outros piratas, queria mesmo era pegar o tesouro.  A partir daí, começa uma eletrizante aventura, com lutas, armadilhas, mortes sangrentas, barcos à deriva, tempestades, descobertas impressionantes.

Quem nunca quis desbravar o mundo ou descobrir um tesouro? Em tempos de crise econômica e pandemia, essas opções parecem ainda mais fantásticas. E se você puder lutar por um sistema que acredita ser cheio de injustiças? Claro que, no processo, você também pode acabar se tornando injusto.

De uma forma bem divertida e com o intuito de mero entretenimento, Robert Louis Stevenson criou um dos grandes clássicos da literatura infanto-juvenil. Esse texto, até hoje, influencia a produção artística, bem como recheia o nosso imaginário a respeito dos famosos piratas.

A Ilha do Tesouro, publicação do mesmo autor de O Médico e o Monstro, foi um título que fez muito sucesso, trazendo consigo cenas de aventura, ação, mistério e muitas reviravoltas. No entanto, para mim, o que faz esse clássico permanecer no nosso imaginário é a quebra do maniqueísmo. Ao citar a obra gótica mais famosa do escritor escocês, lembro-me como a sociedade vitoriana estava bipartida entre o seu lado diabólico e angelical. Essa estrutura de pensamento, derivada da Igreja, foi sendo rompida e fez com que personagens como Jekyll e Hyde ganhassem tanta vida quanto Long John.

Para além disso, a popularidade da obra fez com que a sua importância fosse além das conclusões críticas que podemos tirar do texto. A Ilha do Tesouro traz consigo padrões estéticos e literários, desde a caracterização de um pirata e sua caçada até mesmo ao padrão de viagens de aventura. Sendo diversas vezes adaptado, o estilo de Stevenson acabou ultrapassando muitas fronteiras, chegando a obras aclamadas como One Piece.

Outro aspecto que precisa ser destacado é a narração. Da mesma maneira que outros clássicos infantis, o autor traz um protagonista infantil, mas que tem muito a mostrar ao mundo enquanto amadurece. O apelo da identificação é mesclado com o estilo de “narração de histórias”, dizer isso significa traçar um paralelo do texto escrito com o oral, em que a prosa se torna um diálogo com o leitor. Assim, o título consegue ter uma carga visual e tenta sempre despertar o interesse do público ao antecipar parte dos acontecimentos.

Jim Hawkins, sem sombra de dúvida, é o protagonista perfeito, pois, dessa maneira, somos apresentados ao universo e estilo dos piratas que conhecemos hoje, ganhando preconceitos junto do personagem e desbravando os acontecimentos por uma ótica inocente. Por conta disso, somos capazes de observar como crianças eram vistas naquele período histórico. As crianças não eram somente inocentes, mas capazes de lidar com a morte (luto pelo pai) e até cometer atos hediondos.  

Há muito da construção social e psicológica daquele período histórico sendo elaborado por Stevenson, desde o código de honra dos cavalheiros até o código de honra dos piratas. Por mais que estejam em dois lados da luta, ambos possuem sua moral levada em consideração. Assim, Stevenson marca que nenhum dos dois lados é bom, nem ruim, só são lados com diferentes interesses. Ademais, há arquétipos de jogos de interesse implicitamente, desde a figura do conde até a do cozinheiro.

Contudo, em relação à construção psicológica, o que mais me chamou a atenção foi a repetição do erro por parte dos piratas. Diversas vezes, é ressaltado como o hábito pode ser nocivo e, ainda assim, eles continuavam cometendo os mesmos equívocos. Seria uma forma de Stevenson tentar trabalhar uma camada psicológica desses personagens ou só elevá-los a um patamar de condenados por si mesmos e não, pela sociedade? Não é à toa que o papagaio de Long John se chama Capitão Flint.

A edição apresentada pela editora Autêntica traz a tradução belíssima de Márcia Soares Guimarães, repleto de ilustrações originais de Louis Rhead, bem como notas de rodapé informativas a respeito de passagens e curiosidades. Para além disso, a capa combina muito com tudo que a Ilha do Tesouro é capaz de trazer.

REFERÊNCIAS

STEVENSON, Robert Louis. A Ilha do Tesouro. Tradução de Márcia Soares Guimarães; ilustrações de Louis Rhead. 1ª ed. 4ª reimp. Belo Horizonte: Autêntica, 2021.