RESENHA #189: DISFARCES SOCIAIS

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: A Segunda Guerra Mundial está em seu auge e o Reino Unido encara uma ameaça interna: oficiais nazistas se passando por cidadãos comuns. Por isso, quando o agente Farquhar pronuncia as palavras “M ou N. Sans Souci” antes de morrer assassinado, a inteligência britânica fica em alerta. As letras se referem a espiões alemães infiltrados e o termo, a um hotel na cidade de Leahampton.  Por estarem na meia-idade e acima de qualquer suspeita, o ex-agente Tommy Beresford e sua esposa Tuppence se infiltram em meio aos hóspedes do hotel para investigar o que o estranho código significa. Mas será que eles conseguirão desvendar as identidades de M ou N antes que seja tarde demais?

Embora as grandes guerras tenham sido bem impactantes na vida de muitas pessoas, é sabido que a Rainha do Crime pouco escreveu sobre elas – ainda que tenha criado muitos textos únicos e incríveis enquanto elas aconteciam. Um dos poucos exemplos de romances de espionagem da autora sobre as grandes guerras é M ou N.

Mesmo que não sejam conhecidos como Hercule Poirot e Miss Marple, Tommy e Tuppence são dois detetives bastante famosos. O título em questão é o terceiro que aparecem, já mostrando ambos os personagens na meia-idade. Em um período de escassez de trabalho, duas pessoas ativas como eles sentem a necessidade de serem úteis para seu país e sua família.

Assim, Agatha demonstra no seu romance algumas características marcantes da sociedade britânica. Como ocorre nos títulos de Miss Marple, a escritora pontua críticas quanto à velhice e ao sexo feminino. Tuppence é ignorada por ser mulher enquanto Tommy, seu marido, é delegado a uma missão; essa predileção demonstra os valores adotados pelo governo.

Não menos importante, críticas dos romances iniciais de Poirot também aparecem no título, já que ele não é britânico, mas belga. O romance ilustra o desenvolvimento das relações entre indivíduos e nações. Dessa maneira, Agatha traz como o indivíduo se deixou levar pelo preconceito coletivo. Muitas passagens destacam ações e frases maliciosas dirigidas aos estrangeiros, principalmente, àqueles que são de origem alemã.

O patriotismo ao invés de ser associado somente ao seu lado positivo e benevolente, também, na visão da autora, se levado ao exagero, é extremamente negativo, por ser preconceituoso e trazer um péssimo julgamento diante de situações de risco. Para além disso, Christie demonstra que a corrupção estatal existe e os crimes de guerra podem gerar grandes consequências. Da mesma maneira, pontua brilhantemente o estrago feito por armas biológicas, por vezes, mais nocivas do que outros tipos de armas.

Com aspectos históricos relevantes, o romance traz na sua busca forense alguns problemas quanto à construção científica (no período, eram teorias aceitas, assim, criticar a Rainha do Crime por eles é um anacronismo). No entanto, em contrapartida, esse é um dos únicos romances da autora que considero o desenvolvimento romântico algo positivo e não, negativo para o enredo.

Tommy e Tuppence são um casal muito bem trabalhado, evoluindo durante o seu relacionamento e no decorrer das páginas: ele, geralmente, representa a força física; ela, a intelectual e investigativa. Além disso, é necessário destacar a genialidade e o protagonismo de Tuppence durante o enredo de M ou N, bem como torna-se importante observar como os dois personagens, ao se disfarçarem, foram capazes de ser eles mesmos quando necessário.

A escritora criou um enredo, por vezes, bem divertido – e previsível. Contudo, devo destacar que o teor “cômico” apresentado na narrativa a respeito da relação entre a “viúva desesperada” e “viúvo fujão” não me agradou muito (outro anacronismo, considerando o período histórico). Afinal, esses estereótipos ocorrem justamente pela condição e subjugação social da mulher para que sempre tenha alguém do seu lado para ser completa e feliz. Se Agatha Christie quis expressar alguma crítica com essa ideia, já que é um teatro elaborado por um casal consolidado, não pareceu.

A edição apresenta uma capa que faz bastante sentido com o enredo, bem como traz uma tradução de boa qualidade pelas mãos de Bruna Beber. É uma edição com uma diagramação extremamente confortável.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. M ou N. Tradução de Bruna Beber. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2021.