RESENHA #188: PERDE-SE NO SERTÃO

AUTORA: Rachel de Queiroz
SINOPSE: Ao narrar as histórias de Conceição, Vicente e a saga do vaqueiro Chico Bento e sua família, Rachel de Queiroz, imortal da Academia Brasileira de Letras, expõe de maneira única e original o drama causado pela histórica seca de 1915, que assolou o Nordeste brasileiro.

Ao pensarmos em literatura brasileira, muitas coisas podem passar pela nossa cabeça. Por exemplo, Machado de Assis: para uns, ele é brilhante; outros, enfadonho. José de Alencar pode ser sensacional e, ao mesmo tempo, alguém pode apontá-lo como insuportável. No entanto, a maioria das vezes, nosso pensamento se direciona a autores que são do Sudeste, principalmente do Rio de Janeiro ou São Paulo.

Esse fenômeno acontece, sobretudo, por questões como oportunidade. Nas grandes capitais do Sudeste, as editoras cresceram e expandiram seus negócios, a população local também tem mais engajamento social para ler. Contudo, esse privilégio não deveria inibir a produção de outras localidades.

Aliando-se ao Modernismo, Rachel de Queiroz fez sua estreia engajada em adquirir reconhecimento. O intuito não era que as pessoas a reconhecessem como escritora célebre, mas sim conquistar o espaço social que os moradores do Nordeste, principalmente no período de seca, não tiveram. Tanto ela quanto outros autores, como Jorge Amado, trilharam sua literatura com esse objetivo em mente. Assim, o seu romance modernista é também um romance essencialmente nordestino, essencialmente cearense.

Para além disso, a ideia de Rachel era minar estereótipos sociais apresentados por autores do Sudeste; tratar sobre o processo migratório do Nordeste e da necessidade de novas oportunidades por parte daquela população agrária; e também fazer um panorama, através do relacionamento entre Conceição e Vicente, do período da seca: as esperanças e desesperanças de toda uma população.

Com uma escrita crua e nua de metáforas e frases de efeito, Queiroz retrata a própria seca. A secura proposital do texto faz com que entendamos, ainda mais, a situação apresentada pela a autora. Para além da estrutura sintática, a própria estrutura narrativa enlaça as mazelas sociais: através de Conceição, professora pertencente a elite; Vicente, dono de múltiplas cabeças de gado, mas ignorante; e, não menos importante, Chico e sua família, classe proletária que dependia financeiramente de uma senhora da elite.

Através dessa tripartição, a autora apela para as diferenças entre as classes sociais e de estudo, bem como denota aspectos feministas a partir das escolhas e estudos de Conceição. Por conta disso, observamos outra parte da narrativa extremamente dolorosa: os campos de concentração de refugiados da seca. Também conseguimos encontrar e traçar diversos paralelos, como: o posicionamento da elite, preconceito social e racial, além de trabalho infantil e generosidade.

O Quinze é o tipo de livro que é necessário para compreender a história do Nordeste, bem como do próprio país. Assim, com uma função social e histórica importantíssima, esse romance é uma leitura indispensável àqueles que estejam interessados nesse teor político-histórico.

A edição apresentada pela José Olympio traz consigo mais de um artigo, alguns de grandes nomes, como de Mario de Andrade. A capa tem aspectos em alto relevo, o que traz um charme a mais.

REFERÊNCIA

QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. 115ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2020.

José Olympio - Grupo Editorial Record