RESENHA #187: ACABOU-SE A RAZÃO

AUTOR: Johann Wolfgang von Goethe
SINOPSE: Visitando uma idílica vila alemã, Werther conhece e se apaixona pela doce Charlotte. Embora saiba que ela vai se casar com outro, ele é incapaz de subjugar sua paixão, que o atormenta ao ponto do desespero. A exploração de Goethe da mente de um artista em conflito com a sociedade e mal equipado para lidar com a vida é uma das mais pungentes narrativas romanescas da tragédia humana. Comovente e intimista, Os sofrimentos do jovem Werther continua atual. Sem renunciar a uma escrita fluida, Goethe traz para o centro do romance o eterno conflito entre homem e mundo, fazendo deste livro um dos maiores clássicos da literatura mundial.

Ainda que falemos de amor na literatura e desconheçamos uma definição precisa sobre esse sentimento, esquecemos que, por detrás, temos as singelas obsessões: simples de serem explicadas. Estas são fogosas, intensas, ao ponto de marcar gerações, ao ponto de mudar pontos de vistas sobre escolas literárias.

Conhecidamente precursor do movimento romântico europeu, Os sofrimentos do jovem Werther é um texto epistolar – ou seja, composto por cartas – de um personagem totalmente centrado nele mesmo. Assim, a primeira característica marcada, não só da futura escola como também do texto, é o individualismo presente nas cartas que troca com Wilhelm. Não obstante, seu egocentrismo é tanto que, no decorrer de sua história, até o clima acompanha o seu humor.

Contudo, é interessante perceber o quanto o próprio Werther quer negar essa sua característica tão óbvia, pois tenta demonstrar compaixão para com as classes menos afortunadas. Inclusive, aponta as diferenças de classes e o que seria importante ou não para um príncipe. Essa característica, própria de uma escola de transição fundamental do pensamento europeu, marca as mudanças sociais daquele período histórico, fazendo com que outros, para além da aristocracia, fossem vistos como indivíduos.

Dessa maneira, em uma narração brilhante e bem escrita, Goethe vai nos levando no decorrer das páginas a conhecer a torturante ideia de amor de Werther. Jovem, inconsequente e sentimental. Acima de tudo isso: parte de uma aristocracia patriarcal, cujo respeito ao feminino se mede de acordo com a adoração destinada a ele. A mulher, dentro dessa obra e nesse período histórico, é um objeto de adoração, obsessão e quase uma analogia romântica e comparativa aos textos do passado, como Ossian e Homero. Assim, por vezes, vemos Werther comparar a sua situação e imaginar além de uma medida sã.

Um tema pertinente a ser tratado nesse romance, cujo tempo fez mais mal do que bem (até para o autor), é de caráter psicológico. Werther não é uma pessoa estável, visto que já fugia de males de um relacionamento anterior. Assim, sua obsessão para com Lotte é uma fuga constante de suas relações romântica e familiares posteriores. Sem conseguir lidar com a cultura aristocrática e até mesmo relações empregatícias, acompanhamos no decorrer das páginas um jovem que justifica atos criminosos e até mesmo o suicídio se forem de acordo com seus parâmetros.

Dessa maneira, Os sofrimentos do jovem Werther foi uma obra conhecida não só pela sua fama, mas também por ocasionar o que hoje a psicologia chama de Efeito Werther: a divulgação de suicídio pode acabar acarretando em outros suicídios. Essa é uma regra, inclusive, utilizada pelo jornalismo até hoje.

Entretanto, devo ressaltar, como ponto de vista pessoal, que a parte epistolar da narrativa, ainda que fuja do meu paladar literário, traz noções bem interessantes em relação a obsessão amorosa, as classes sociais e a fuga dos paradigmas e condutas sociais, cujo destaque se apresenta no momento em que Werther se afasta da presença de Lotte. Só que o texto peca ao apresentar as impressões do editor, já que ele justifica parte dos sentimentos de Werther que, anteriormente, não eram nem um pouco correspondidos – tornando-os justificáveis de forma incômoda.

A leitura desse clássico é ambígua e amarga, porém acredito que seja extremamente válida justamente por causa disso. Conhecer essa obra faz com que conheçamos todo um período histórico, bem como a transição de uma escola literária e de todo um pensamento ocidental.

A tradução de Mauricio Mendonça Cardozo segue fielmente os nomes dos personagens, o que me agradou imensamente, da mesma forma que se preocupa com os termos e os jogos de palavras usados pelo autor no original. A introdução de Michael Hulse é também muito esclarecedora. Assim, a editora Penguin traz um conteúdo excelente para que o leitor possa sofrer junto de Werther.

REFERÊNCIA

GOETHE, Johann Wolfgang von. Os sofrimentos do jovem Werther. 1ª ed. São Paulo: Penguin-Companhia das Letras, 2021.