RESENHA #186: A SUPERSTIÇÃO

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: O policial Luke Fitzwilliam retorna à Grã-Bretanha depois de anos servindo no Oriente Médio para uma longa estadia. Em seu caminho para Londres, ele cruza com uma mulher que afirma ter um serial killer atuando em seu pequeno vilarejo, Wychwood. De início, Fitzwilliam não acredita nas declarações de Miss Pinkerton, mas, quando recebe a notícia de que sua companheira de viagem foi encontrada morta, decide dar uma chance à investigação. Então, o corpo de uma quarta vítima aparece, e todas as mortes parecem um acidente. Mas, como Fitzwilliam descobrirá, em Wychwood, nada é como parece…

Depois de muito ler a Rainha do Crime, tornou-se um hábito olhar para os pontos certos da narrativa a fim de descobrir o mistério. É muito simples, como ela mesma dizia; as respostas estão sempre lá, é só saber encaixá-las da maneira correta.

No entanto, embora as pistas de É fácil matar estejam lá, essa é uma narrativa capaz de levantar a dúvida sobre quem, de fato, comete os crimes quase até o final do texto. Assim, como primeiro ponto a se destacar, devo dizer que eu realmente fiquei surpreendida pela minha demora em saber o verdadeiro culpado – considerando que, geralmente, eu dou como certo quem é o assassino logo nos primeiros capítulos.

Esse fato tem uma explicação bem interessante: dessa vez os assassinatos não são uma vingança cega, mas acima de tudo atos de um sociopata. Essa característica traz alguns estereótipos marcados ao assassino que só são possíveis de identificar quase no final do texto. Ainda que as dúvidas sempre estejam ali, elas se afugentam: ora para alvos mais previsíveis; ora para alvos menos pensados.

Através desse personagem, Christie levanta pontos bem interessantes quanto ao jogo de aparências – comumente presente em suas obras –; a percepção de pessoas desconsideradas pela polícia; bem como a própria dúvida sobre a verdade e a mentira descrita por uma pessoa sociopata. Assim, ela traz uma excelente caracterização de tais indivíduos. Não menos interessante, a escritora também contrapõe casamentos por interesse e pessoas quebradas por relacionamentos problemáticos. Essas características reforçam a complexidade não só do assassino, mas de outros personagens envolvidos nos crimes.

Além disso, há aspectos nessa obra que aumentam a qualidade dela. Como exemplo, a aparição do detetive para a população local trata, a priori, de superstições: como eles observam a morte? Quais são seus ritos e mitos? Da mesma maneira, a cidade tem um cidadão conhecidamente ocultista, cujos rituais são feitos nas proximidades. Outra característica marcada é a aparição de Bridget e a sua associação com uma bruxa, mais de uma vez. Nenhuma dessas menções são sem propósito, pelo contrário, a autora acaba trabalhando a diferença entre cidades mais rurais e mais urbanas, contrapondo os membros dessas comunidades e a sua tolerância para crimes.

Mais uma das características que podem ser levantadas sobre esse romance é como, o tempo todo, todos os crimes parecem acidentes. Assim, acaba se tornando ainda mais complexo o jogo de aparências que, na maioria de seus livros, Christie acaba trabalhando.

Ainda que tenha algumas passagens, principalmente no final, incômodas para nosso paladar contemporâneo, a obra trabalha diferentes tipos de crimes. Um deles, inclusive, utiliza arsênico, o tipo de envenenamento mais comum no período vitoriano e, na época do romance, sendo de fácil acesso à população. Também aparece, nas páginas de É fácil matar, o superintendente Battle, outro detetive conhecido da escritora, que alega, mais de uma vez, que qualquer um pode cometer um crime.

Esse romance, excelentemente construído, teve a boa tradução de Érico Assis. Não só a cor, mas a imagem colocada por Túlio Cerquize na capa casam perfeitamente com a ideia proposta pelo romance. Afinal, às vezes, a dificuldade de um assassino não é matar, mas abrir suas asas e se sentir livre. 

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. É fácil matar. Tradução de Érico Assis. 1ª ed. Rio de Janeiro: Harper Collins Brasil, 2021.