RESENHA #185: AS MÃES DA RÚSSIA

AUTOR: Boris Pasternak
SINOPSE: Boris Pasternak traz à luz o drama e a imensidão da Revolução Russa pela história do médico e poeta Iúri Andréievitch Jivago em seu constante esforço de se colocar em consonância com a Revolução. Por seus olhos hesitantes o leitor testemunha a eclosão e as consequências deste que foi um dos eventos mais decisivos do século. Em tempos em que a simples aspiração a uma vida normal é desprovida de qualquer esperança, o amor de Jivago por Lara e sua crença no indivíduo ganham contornos de um ato de resistência.

Dentro da construção de muitas sociedades, a mulher – prototipicamente – é a responsável por cuidar dos filhos, preocupando-se com a educação, alimentação e sobrevivência de sua prole. Ela, como é referido, possui um “instinto materno”, uma obrigação e conexão com a criança que os pais jamais serão capazes de compreender.

Na percepção apresentada em Doutor Jivago, obra que congratulou Boris Pasternak com um Nobel, pode-se perceber que esse aspecto direcionado ao público feminino é também parte do epíteto do país que vive e trabalha durante a narrativa: Mãe Rússia. É a terra que sustenta e alimenta os homens (seus filhos), lugar no qual cultivam as suas raízes históricas, filosóficas, políticas e sociais.

Embora não seja um livro direcionado ao público geral, Doutor Jivago é uma trama que, sem dúvida, carrega consigo um brilhantismo tanto na estética narrativa quanto nas múltiplas analogias elaboradas pelo autor. Todo o tempo, Pasternak brinca com a política de seu país enquanto narra as aventuras amorosas de um médico que, pouco a pouco, desacredita na Revolução que experiencia.

Assim, o romance em questão não é sobre os relacionamentos românticos do médico, mas, através deles, como plano de fundo, metaforiza as etapas da revolução e constrói uma gama enorme de críticas ao desenvolvimento político e filosófico que a Rússia tomou. Embora fosse uma revolução, no meu ponto de vista, necessária, ela foi feita como tantas outras: ideias altruístas que, no final, constroem desigualdades.

A partir desse desenvolvimento analógico, Boris constrói e desconstrói conceitos como arte, revolução, filosofia, posicionamento da mulher, guerra, cárcere etc. Para além disso, Doutor Jivago é um romance denso e bastante descritivo, pois é o ambiente – acima de tudo –, ou seja, a Mãe Rússia, a protagonista dessa história. No entanto, ainda que seja descritivo e possua algumas passagens desnecessárias, traz consigo uma carga poética sem igual.

No mais, esse romance, justamente por se tratar de um desenvolvimento cíclico, firma seu início e seu fim em um ponto extremamente similar, lembra muito Anna Kariênina, de Liev Tolstói. E, não menos importante, outros clássicos russos, pois a literatura russa não trata somente sobre aspectos sociais, mas sobre como a vida e a morte são ciclos intermináveis e o quanto a literatura se espelha nisso.

A tradução do texto em prosa de Sonia Branco é bem limpa, bem como a tradução em poesia de Aurora Bernardini. A divisão apresentada pela Companhia das Letras é tão clara quanto a diagramação da edição, com uma capa visualmente conectada a história. Sem erros de revisão gritantes, a obra é um clássico que – ao meu ver – é essencial para se ter na estante.

REFERÊNCIA

PASTERNAK, Boris. Doutor Jivago. Tradução de Sonia Branco; tradução dos poemas de Aurora Fornoni Bernardini. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.