RESENHA #183: O EXTREMO DA CULTURA

AUTORA: Ray Bradbury
SINOPSE: Guy Montag é um bombeiro. Sua profissão é atear fogo nos livros. Em um mundo onde as pessoas vivem em função das telas e a literatura está ameaçada de extinção, os livros são objetos proibidos, e seus portadores são considerados criminosos. Montag nunca questionou seu trabalho; vive uma vida comum, cumpre o expediente e retorna ao final do dia para sua esposa e para a rotina do lar. Até que conhece Clarisse, uma jovem de comportamento suspeito, cheia de imaginação e boas histórias. Quando sua esposa entra em colapso mental e Clarisse desaparece, a vida de Montag não poderá mais ser a mesma…

Em um contexto pós-guerra com novas tecnologias surgindo, a principal delas sendo a televisão, Ray Bradbury percebeu que o mundo estava mudando. Mas será que seria para melhor? Assim, sem escolaridade, mas com uma sede de conhecimento incrível, Bradbury marca a história das distopias com a obra Fahrenheit 451.

Como o subtítulo já diz, o autor atribuiu esse nome a sua história mais famosa porque seria a temperatura ideal para a queima de papel. No entanto, o papel não é só a representação literal da queima de livros feita pelos bombeiros, mas a metafórica também, já que a sociedade perde o conhecimento acumulado de gerações ao queimá-los.

Entre muitos simbolismos e metáforas, Bradbury marca, através de uma escrita singular, o que ele compreende da sociedade e também da cultura de massas. Adorno, ao cunhar o termo “cultura de massa”, condensa o pensamento de vários autores de seu período a respeito da construção da arte pelo entretenimento e não, pela busca reflexiva da sociedade e das relações humanas. Essa massificação representa a alienação da população, colocando-a na ignorância e fazendo-a não questionar jamais.

Através de Fahrenheit 451, Bradbury constrói um cenário dolorosamente possível, tanto em termos sociais quanto políticos. Ao observarmos a sociedade de Montag, podemos perceber que o ser humano deixa sua essência de lado ao esquecer o passado. Ele não sabe mais apreciar a natureza, o outro e a sua própria saciedade como ser humano. Sua felicidade nunca é completa, porque os seres humanos já não o são também.

A ignorância rivaliza com o conhecimento a tal ponto que as paredes se fecham, fazendo com que a realidade fique de fora. Essa realidade se torna bipartida e, aos poucos, vê-se como o que é real e o que o governo vende como real são coisas diferentes. Assim, o livro se torna muito mais atual do que se poderia perceber à primeira vista.

Para além disso, o autor opta utilizar a inversão de valores através da figura do bombeiro, dando uma nova roupagem e necessidade a essas figuras de autoridade. Eles, que antes representavam a preservação cultural, passam a simbolizar o oposto. Somado a isso, como Neil Gaiman aponta em seus questionamentos, Bradbury não limita o livro ao papel, mas sim a todo e qualquer tipo de exibição cultural e artística que possua o intuito de gerar reflexão e conhecimento.

A edição cedida em parceria pela Biblioteca Azul conta com textos de Neil Gaiman e Margaret Atwood sobre a relevância que essa obra tem tanto na história mundial quanto em suas histórias pessoais. A diagramação é de qualidade, conta com material exclusivo e traz muitas informações a respeito da obra e do que ela pode suscitar ao leitor. Fahrenheit 451 nunca ganhou uma estética tão coerente, nem uma tradução tão bem feita.

REFERÊNCIA

BRADBURY, Ray. Fahrenheit 451: a temperatura em que o papel do livro pega fogo e queima… Tradução de Cid Knipel. 4ª ed. Rio de Janeiro: Biblioteca Azul, 2020.