RESENHA #182: GRANDES POTÊNCIAS

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Um homem invade o apartamento de Hercule Poirot em circunstâncias suspeitas. Quem é ele? Está sofrendo de choque ou há algo mais grave acontecendo? Acima de tudo, o que significa o papel que carrega, em que o número quatro foi escrito várias e várias vezes? De repente, Poirot se vê submerso em um mundo de intrigas, arriscando a vida para descobrir a verdade sobre uma organização criminosa internacional.

Embora estejamos acostumados a ver Poirot desvendar crimes, nem sempre Agatha Christie cria enredos de romance policial. Ou seja: nem sempre é sobre quem cometeu um crime e precisa ser levado à justiça, próprio do subgênero whodunnit (tradução literal: quem fez isso?). Na verdade, a Rainha do Crime é capaz de ir muito além do gênero policial, enveredando-se para romances ideológicos, como em Passageiro para Frankfurt, ou romances de espionagem.

Em Os Quatro Grandes, Christie traz uma mescla muito interessante entre o que é apresentado em romances de espionagem e romances policiais, focando nas investigações e interações divertidíssimas de Poirot e capitão Hastings. Dessa forma, somos capazes de acompanhar não só uma conspiração mundial, mas Poirot em seu trabalho cotidiano – ou quase isso – em um estilo similar ao que encontramos nas aventuras de Sherlock, de Conan Doyle.

Essa similitude se deve, principalmente, a presença de Hastings como narrador. Da mesma forma que Watson fica confuso com o modus operandi de Sherlock e, por isso, parte de sua investigação pode soar arbitrária para o leitor; o mesmo acontece em Os quatro grandes. Hastings é uma figura carismática e interessante, mas serve como contraponto a genialidade e sagacidade de Hercule. Por conta disso, a parte investigativa, própria do romance policial, é bem frágil, o que não é um problema já que se trata de um romance de espionagem.

Para além do desenvolvimento da narrativa, a crítica elaborada por Agatha Christie é formidável. Escrito entre a Primeira Guerra Mundial e a Segunda, a autora demonstra a importância das grandes potências mundiais através de seus aspectos mais intrínsecos: o conhecimento ancestral chinês; a importância das artes através da Inglaterra; o dinheiro estadunidense; e o conhecimento científico francês; bem como acaba elaborando o aspecto estratégico da União Soviética.

No entanto, considerando a historiografia, Agatha Christie parece ter acertado em cheio em relação ao desenvolvimento da China: seja porque tinha informações privilegiadas; seja porque era atenta às relações políticas. Essa afirmação se deve por conta de dois aspectos: o primeiro é que, em 1927, ano de lançamento do romance, começa o que entendemos como “Massacre de Xangai”; o segundo é a elevação da China como uma das maiores potências mundiais do nosso período, mesmo após ser usada por outras potências.

Como outros romances de Poirot nessa nova edição, a tradução ficou ao encargo de Luisa Geisler. Com um design clean, as peças de xadrez na capa fazem bastante sentido em relação ao enredo. A diagramação é bem confortável, o que faz com que você não queira largar o livro até que chegue ao final.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Os quatro grandes. Tradução de Luisa Geisler. 1ª ed. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2020.