RESENHA #181: O SILÊNCIO ALICIA À VERDADE

AUTORA: Alex Michaelides
SINOPSE: Alicia Berenson tinha uma vida perfeita. Ela era uma pintora famosa casada com um fotógrafo bem-sucedido e morava numa área nobre de Londres que dá para o parque de Hampstead Heath. Certa noite, Gabriel, seu marido, voltou tarde para casa depois de um ensaio para a Vogue, e de repente a vida de Alicia mudou completamente…Alicia tinha 33 anos quando deu cinco tiros no rosto do marido, e ela nunca mais disse uma palavra.A recusa de Alicia a falar ou a dar qualquer explicação transforma essa tragédia doméstica em algo muito maior – um mistério que atrai a atenção do público e aumenta ainda mais a fama da pintora. Entretanto, enquanto seus quadros passam a ser mais valorizados que nunca, ela é levada para o Grove, um hospital psiquiátrico judiciário na zona norte de Londres.Enquanto isso, Theo Faber é um psicoterapeuta forense que espera há muito tempo por uma oportunidade de trabalhar com Alicia. Ele tem certeza de que é a pessoa certa para lidar com o caso. No entanto, sua determinação para fazê-la falar e desvendar o mistério de por que ela atirou no marido o arrasta para um caminho tortuoso que sugere que as raízes do silêncio de Alicia são muito mais profundas do que ele jamais poderia imaginar.Porém, se ela falar, ele será capaz de ouvir a verdade?

Este é o primeiro livro do autor greco-britânico Alex Michaelides. Formado em literatura pela universidade de Cambridge, Michaelides estudou psicoterapia por três anos e trabalhou por dois em uma unidade de segurança para jovens adultos. Essas experiências combinadas, certamente, deram embasamento para o enredo verossímil de A Paciente Silenciosa, constituído por personagens complexos e psicologicamente ricos.

Este livro é atravessado por vários simbolismos, embora um em especial esteja impregnado por toda a obra.

A primeira coisa a ser notada é a escolha por uma narrativa mista, em sua maioria feita sob a ótica do psicoterapeuta Theodoro, intercalada com trechos do diário de Alice. Esta é uma estratégia sagaz do autor, pois é através dos diários que podemos ter acesso à outra perspectiva sem que Alice use sua voz. Simultaneamente, o desenvolvimento dos narradores e seus relacionamentos com os demais personagens atuam túneis de um labirinto, ramificando nossas suspeitas sobre a verdade do assassinato de Gabriel e muitas vezes nos atraindo a armadilhas e becos sem saída.

Antes do mistério de Alicia, da indubitável determinação de Theodoro e da curiosidade do leitor, o tema máximo dessa obra é o silêncio. Comecemos pela duplicidade do título A Paciente Silenciosa, principalmente do adjetivo. Podemos interpretar uma abordagem mais literal, como uma cliente que possui um trauma a ser tratado e se utiliza do silêncio, já que não há nada mais a ser dito; ou, ainda, podemos ir mais a fundo e vê-la como alguém paciente, se pensarmos do ponto de vista do enredo. A personagem aguarda para nos mostrar a sua verdade e usa seu silêncio como uma forma de resistência, pois nem todos estariam prontos ou seriam merecedores para tal.

Juliana Hernandez, psicanalista que estuda Lacan, analisa o significado do silêncio no conto homônimo e autoria de Clarice Lispector. De acordo com a pesquisa dela, há dois tipos de silêncio: o sileo e o taceo. O primeiro denomina o silêncio do vazio, de se zerar a existência, possível apenas quando nos distanciamos da realidade. O segundo diz respeito ao silêncio no qual o sujeito se cala, ou é silenciado, simplesmente porque não se pode dizer tudo, pois toda verdade é “semi-dita”. Devemos, portanto, considerar que toda a história e vivência humana possui mais de um narrador, o qual observa e sente os eventos por uma perspectiva única. Seguindo essa interpretação, o silêncio

“…é aquilo que, não dito, poderia ter sido [dito], ou seja, é um silêncio que encontra correspondência na palavra…”

Aplicando essas alegorias aos person agens, Alicia seria o silêncio sileo e Theodoro, o silêncio taceo. Dessa forma, Alícia negligencia sua existência, provocando assim Theodoro, que busca desesperadamente salvá-la. Por outro lado, o psicoterapeuta nos oferece pequenos silêncios que vão sendo preenchidos à medida que avançamos no percurso da leitura, por vezes demasiadamente sufocante. Munidos de seus respectivos silêncios, ambos lutam por sua verdade.

No que me cabe, esse livro possui um viés psicológico profundo sobre o poder das palavras nas relações humanas. Alex Michaelides faz um primoroso trabalho ao juntar duas áreas das humanidades que são fundamentalmente inseparáveis. As palavras aquecem corações, amortecem dores, trazem sorrisos. Contudo, também carregam pólvora o suficiente para causar desavenças, matar relações e reativar gatilhos.  

Essa grande dicotomia entre silêncio e palavra enfatiza os efeitos da falta de comunicação nas relações, servindo como força motriz para gerar interesse no leitor. Theodoro é a voz, a presença nada imparcial; Alicia é o silêncio, a invisibilidade que vaga à plena vista. As narrativas entrelaçadas se validam, cada qual a seu modo e ambas necessárias ao leitor, um se reconhecendo dentro do outro como as metades yin e yang.

Não menos importante, uma vez descoberto o mistério, dentro do livro, vemos duas reações totalmente opostas a uma mesma situação, restando-nos o dilema moral: alguém, além de nós mesmos, possui o direito de interferir em nossas verdades?

REFERÊNCIAS

Hernandez, J. (2004). O duplo estatuto do silêncio. Psicologia USP15(1-2), 129-147. https://doi.org/10.1590/S0103-65642004000100016

MICHAELIDES, A. A paciente silenciosa. Tradução de Clóvis Marques – 8º ed. – Rio de Janeiro: Record, 2020.