RESENHA #179: O QUE É “HUMANIDADE”?

AUTORA: Frederick Douglass
SINOPSE: Frederick Douglass é um dos homens cuja trajetória pode ser classificada como uma das mais impressionantes da história mundial.  É importante ressaltar que Douglass não é apenas um personagem cuja relevância se reduz à história dos Estados Unidos. Trata-se de um homem cujas ideias e ações possibilitaram uma maior compreensão do mundo em que hoje vivemos e que deixou relatos que nos permitem assistir a como funcionavam as sociedades escravocratas.  Na Autobiografia aprendemos, por meio de seu olhar, de que modo as sociedades construídas sobre o trabalho escravo firmaram, a exemplo do que ocorreu no Brasil, um pacto de todos contra os escravizados, pacto este que está na composição das instituições jurídicas, das instituições políticas e na vida cotidiana.

No decorrer da história da humanidade, o termo “humanidade” ganhou um sentido positivo, pois considera que ser humano é ser bom, gentil com o próximo e a natureza. Mas como usar a palavra “humanidade” sem pensar nas múltiplas atrocidades que nós cometemos? Os genocídios? As escravidões? As opressões? As ditaduras? Eu, particularmente, nunca consegui entender esse adjetivo por completo.

Essas atrocidades não foram só com o meio ambiente, mas uma parcela da própria humanidade sofreu com elas. Uma das mais terríveis e revoltantes foi a escravidão, trazida ao mundo pelos portugueses. Assim, como todas as repressões mais violentas, por exemplo, o Holocausto, os opressores inventaram uma desculpa para humilhar, perseguir, tirar riquezas, bem como remover milhões de pessoas de suas terras natais.

Pode-se dizer que Hitler plagiou a ideia dos portugueses, já que a proposta de “supremacia branca” – quando estudamos história – é do século da escravatura (ainda que reformulada). Enquanto Hitler tirava a riqueza do povo judeu para utilizar em sua campanha, dando a desculpa que eles inventaram sobre a origem da humanidade; os portugueses mentiram descaradamente sobre a população africana para utilizá-los como bem entendessem, impelindo a ideia de que negros não eram seres humanos, mas animais irracionais. 

Frederick Douglass, um escravo capaz de uma oratória sublime, bem como um dos homens mais inteligentes da humanidade, mostrou aos estadunidenses que essa falácia sobre os negros era um absurdo. Mais ainda, como Silvio Almeida aponta no decorrer de sua apresentação, Douglass demonstrou que a escravidão fazia parte de um problema muito maior e que somente a abolição não daria conta. Assim, sua Autobiografia nos aponta, através de um relato direto, o que era a escravidão, como ela funcionava e quais escolhas uma pessoa tinha para ser livre.

De maneira indireta, Douglass nos demonstra no decorrer do seu relato – limpo, mas emocionante mesmo assim – como se construiu a repressão contra a população negra, através dos detalhes de sua vida. Por exemplo, relata sobre a separação maternal, a proibição à leitura, o afastamento dos seus conterrâneos etc. Muitas dessas situações vividas pelo autor são tão terríveis que tentar exprimi-las em um texto é impossível.

Com um cunho histórico impressionante, a “narrativa de escravos” de Frederick Douglass deveria ser lida por toda a população mundial. Não só porque se trata da história da humanidade, mas porque mostra o que é a “humanidade” e o que ela é capaz de fazer com seus semelhantes para tirar vantagens. Essa história de vida é um exemplo para que nós não cometamos os mesmos erros e, ao mesmo tempo, são os primeiros anos de um dos homens mais excepcionais que pude conhecer através de uma biografia.

Douglass foi jornalista, influenciador abolicionista, consultor presidencial e muito mais. Ele foi um dos primeiros a entender, por exemplo, que embora a escravidão tenha sido abolida, os seus remanescentes históricos e a repressão advinda daí não foram. Ele podia ser livre, mas ainda estava rodeado de leões tentando engoli-lo.

A edição da editora Vestígio está realmente excepcional, considerando a quantidade de informações e apêndices, bem como a apresentação de Silvio Almeida. A diagramação é muito confortável e a capa está excepcional.

REFERÊNCIAS

DOUGLASS, Frederick. Frederick Douglass: autobiografia de um escravo. Tradução de Oséias Silva Ferraz; revisão da tradução de Guilherme Gontijo Flores; orelhas de Leonardo Gonçalves. 1ª ed. São Paulo: Vestígio, 2021.