RESENHA #177: PATRÃO OU EMPREGADO?

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Após sofrer uma morte violenta, o milionário Rex Fortescue é encontrado com uma porção de centeio no bolso do paletó. Em pouco tempo, o assassino faz outras duas vítimas ― entre elas uma moça que costumava trabalhar para Miss Marple ―, e a única pista da velhinha é que o homicida segue à risca a letra de uma cantiga infantil ao cometer os crimes. Miss Marple decide investigar as mortes, mas ela precisa correr, pois há um maníaco à solta e o próximo verso da canção se aproxima…

Agatha Christie tem um padrão muito interessante em relação as suas vítimas. Muitas das vezes, elas são pessoas boas e gentis para com todos, fazendo com que seja difícil descobrir quem gostaria de matar alguém assim (claro que, no decorrer da obra, percebemos que ninguém é isento de ódio alheio). Outras, no entanto, são pessoas tão odiosas que todos gostariam de meter uma facada em nome da vingança.

Uma porção de centeio, o novo título de Cem gramas de centeio, é uma obra que conta com a ilustre presença de Miss Marple, detetive mulher, idosa e supostamente amadora. Tal como outros volumes da personagem, ela aparece bem distante da investigação policial, encaminhando-a para diferentes perspectivas através da sua usual comparação com o lugar onde vive. Assim, como em outros romances, Miss Marple e Agatha Christie nos mostram que a natureza humana não muda e, sua imutabilidade, faz com que os crimes soem óbvios para a senhora.

Entretanto, o ponto alto desse romance é que existe um envolvimento passional por parte da personagem, cuja entrada na investigação se deve a seu envolvimento quase maternal com a terceira vítima. A mais inocente dentre os assassinados e a menos valorizada pela polícia por ser mera empregada.

Dessa maneira, em mais um romance da autora, encontramos fortes críticas às classes sociais e como empregados são subjugados, menosprezados e desvalorizados como seres humanos. No máximo, ocorre de o mordomo ser visto como criminoso.

Para além disso, a autora demonstra como o jogo de aparências é muito importante para a elite, mesmo que a família seja totalmente desestruturada e amarga entre seus pares, eles continuam conectados uns aos outros.  

No entanto, por mais que o desenvolvimento e a construção do romance seja da melhor qualidade, confesso que as conveniências do roteiro e as informações que só Miss Marple tinha acabaram me incomodando um pouco. Elas não são um deus ex machina porque são citadas no decorrer da narrativa, porém, ainda assim, soam milagrosas o suficiente para um final redondo.

A edição cedida através da parceria com a editora HarperCollins segue o padrão clean das novas edições, com um material de bastante qualidade e um design muito bonito, é um excelente livro para se ter na estante. Além disso, o novo título, Uma porção de centeio, faz muito mais sentido do que o adotado anteriormente.

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Uma porção de centeio. Tradução de Samir Machado de Machado. 1ª ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2021.