RESENHA #175: QUEM MERECE MORRER?

AUTORA: Agatha Christie
SINOPSE: Às 7 da manhã, os Bantry acordam e encontram o corpo de uma jovem em sua biblioteca, sem fazer ideia de como chegou ali. Chocada com os acontecimentos, a Mrs. Bantry chama sua amiga, Miss Marple, a detetive amadora mais famosa da pequena St. Mary Mead, para descobrir a identidade da garota e do assassino. Quando outro corpo surge em uma pedreira, cabe a Miss Marple desvendar a conexão entre eles e solucionar o caso.

Agatha Christie, considerada a Rainha do Crime, é uma das autoras mais conhecidas do gênero de romance policial. Diria até que, do gênero feminino, ela é a mais famosa. Dentre seus personagens mais presentes, encontramos Hercule Poirot, o belga arrogante, e Miss Marple, a senhorinha simpática.

Um corpo na Biblioteca conta com a presença ilustre de Miss Marple. No entanto, como reclamação geral, em seus livros, a personagem aparece pouco ou quase nada. Muitos querem encontrar, como fazem com Poirot, a senhora distinta no meio da investigação. Só que isso não acontece de propósito e, se considerarmos a época de Christie, nem faria sentido que fosse diferente.

No decorrer da leitura, a escritora faz diversos comentários a respeito da natureza humana e sobre o machismo estrutural, alavancando outros preconceitos como de origem, idade, status social e econômico. Sendo assim, a estrutura do romance e a pouca permanência de Miss Marple nas páginas, significa ressaltar como a sociedade inglesa é preconceituosa com estrangeiros, mulheres, idosos e pessoas de classe baixa.

Entre descrições e falas extremamente machistas, a escritora consegue traçar um panorama completo do pensamento da época e, ao mesmo tempo, subverte-o ao trazer uma vítima sexualizada pela polícia como uma virgem; apoiar-se numa investigação de cunho sexual quando não é; e não se apoiar em quem deveria morrer só por aparentar que “estava pedindo para isso”. Não menos importante, a solução do crime parte de uma mulher idosa.

Para além desses aspectos, o romance também traz a percepção da sociedade em relação a crimes no geral: apontando e fofocando a respeito do ocorrido e fazendo o famoso julgamento popular, antes mesmo do resultado da perícia e da polícia. Com isso, a nossa adorável detetive precisa resolver o crime tanto pela solução do mistério quanto para ajudar seus amigos a não serem taxados como criminosos. Assim, Agatha Christie mostra que um crime pode ter mais vítimas do que somente os assassinados.

Outro teor interessante que permeia a obra – todas com a presença de Miss Marple, na verdade – é o fato de ela sempre fazer associações quanto aos acontecimentos de onde mora e os personagens envolvidos com o crime. Tal associação proposital se deve, sobretudo, para ilustrar seu argumento: afinal, a natureza humana é sempre igual em qualquer lugar.

Há muitos personagens interessantes em Um corpo na biblioteca e diversos contrapontos críticos sendo feitos a todo momento, entre eles: as duas vítimas; Miss Marple e Mr. Jefferson; Miss Marple e os policiais etc. Cada um deles possui uma função não só narrativa, mas também uma funcionalidade crítica para compreender a humanidade e a sociedade britânica.

A edição de Um corpo na Biblioteca da editora HarperCollins segue o padrão das novas edições de capa minimalista, tendo um design clean, bem como uma página ressaltando que este romance pertence a coletânea de aventuras de Miss Marple como detetive. A tradução de Samir Machado de Machado é boa, porém, contém alguns erros e um deles é bem significativo (embora possa ter sido apenas um erro de digitação, já que, ao invés de escrever por extenso como a autora, ele preferiu encurtar digitando os números). O erro em questão, para aqueles que já possuem a edição e gostariam de saber, diz respeito ao horário que o Mr. Bantry chegou em casa na noite anterior a descoberta do crime e o horário que foi dormir.    

REFERÊNCIA

CHRISTIE, Agatha. Um corpo na biblioteca. Tradução de Samir Machado de Machado. 1ª ed. Rio de Janeiro: HarperCollins, 2020.