RESENHA #173: A INSPIRAÇÃO DA FANTASIA

AUTORA: George MacDonald
SINOPSE: A obra de fantasia clássica que influenciou C.S. Lewis e J.R.R. Tolkien, considerada uma das obras mais importantes de George MacDonald, é a história do jovem Anodos e suas aventuras no reino das fadas que, em última análise, revelam a condição humana. “Escrevo não para crianças”, disse George MacDonald, “mas para crianças, sejam elas de cinco, cinquenta ou setenta e cinco anos”. Tudo escrito com um capricho inocente e um anseio cheio de alma, o coração da jornada de Anodos através do Reino das Fadas revela uma busca espiritual que requer uma entrega de si mesmo.

De acordo com o platonismo, nossa alma conhece dois planos: o mundo sensível, aquele que vivemos; e o mundo inteligível, aquele que esquecemos, também chamado mundo das ideias. Assim, o mundo sensível seria o lugar em que estamos, uma cópia desse lugar idealizado.

Muito da perspectiva filosófica da teoria cristã segue os percalços do neoplatonismo, o que faz George MacDonald, ao criar Phantastes, um homem que acredita não somente em um lugar terreno, mas outro, que vai além da imaginação comum. Esse lugar, dependendo do seu pensador, pode ser sombrio ou feliz. Na perspectiva do escritor, era o reino das fadas.

Ao contrário de muitos do seu período histórico, antes ou depois dele, não via a cultura pagã, fora desse seio religioso, como algo negativo. Na verdade, mesmo sofrendo consequências por conta disso, ele acreditava e absorvia a natureza tanto como cristão quanto como alguém que acreditava nas crenças além da sua própria concepção religiosa. Ao respeitar a cultura do outro, MacDonald entendia que podia absorver, bem como aprender.

Através de uma descrição impecável, extensiva e imersiva,o autor vai nos encaminhando através de referências a contos de fadas, lendas e de simbolismos dentro da cultura ocidental. Desde os personagens que perseguem o Santo Graal até a importância das histórias fantásticas, o autor dá vida a imaginação e também a representatividade psíquica que essas histórias abarcam no nosso inconsciente.

 É um livro que trata sobre o ser humano, seus defeitos e medos, bem como sobre as suas qualidades e desejos. Não nega espaço à ambição, ao pecado, à justiça, à paixão, ao desejo, à morte e ao amor, principalmente, ao amor cortês. O amor cortês era um estilo do período medieval que elencava as relações amorosas não ao patamar carnal, mas sim a idealização da pessoa amada.

Dessa forma, retomando a cultura religiosa e ao platonismo, MacDonald enfatiza o amor como o mais puro e belo sentimento, também trazendo à tona descrições belas e desmistificando a relação entre a beleza externa e interna, algo presente na cultura clássica.

Phantastes, além de fantasia descritiva, traz consigo a jornada do herói, conscientizando Anodos sobre seus defeitos, curando-se de seus pecados através de reflexões de sua própria história como também histórias de outros. De personagem principal, ele vai se tornando coadjuvante e herói trágico. No entanto, vivendo em um mundo dentro de outro, sua vida é parte do ciclo da natureza.

A narrativa se dá através de um diário escrito pelo personagem, o que mostra que esse mundo, pouco a pouco, vai se apagando da mente do narrador da história. Esse narrador lembra, mas não de tudo, deixando-nos preencher partes com nossa imaginação. Além disso, há uma passagem muito interessante a respeito da genealogia feminina, de como os homens se lembram quem são seus pais, avôs e bisavôs, mas quase nunca sobre suas mães, avós e bisavós.

A edição apresentada pela editora Harper Collins tem uma diagramação impecável, ilustrações entre capítulos ou dentro deles. Conta também com a proteção de uma jacket e capa dura. Todo o layout, desde a arte da capa, da diagramação e da jacketsegue o padrão naturalista da obra, mostrando-se um livro lindíssimo. A tradução de Cristófalo é excelente, contendo poucos erros de digitação ou concordância. Somado a isso, temos a introdução de um dos nomes mais importantes da fantasia, C. S. Lewis.

REFERÊNCIA

MACDONALD, George. Phantastes. Tradução de José Fernando Cristófalo. 1ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2020.